Alasdair MacIntyre sugeriu uma vez que "fatos, assim como telescópios e perucas para cavalheiros, são invenções do século XVII". Algo similar pode ser dito sobre orientação sexual: heterossexuais, assim como máquinas de escrever e mictórios (também, obviamente, para cavalheiros), são invenções da década de 1860. Contrário aos nossos preconceitos culturais e às mentiras do que é chamado de "essencialismo de orientação", "hétero" e "gay" não são absolutos atemporais. Orientação sexual é um jogo conceitual com uma história, e uma história sombria. E é uma história que começou muito mais recentemente do que a maior parte das pessoas sabe, e que provavelmente vai acabar muito antes que a maior parte das pessoas pensa.
Ao longo de vários séculos, o Ocidente tem abandonado progressivamente a arquitetura conjugal do cristianismo para a sexualidade humana. Então, a cerca de 150 anos, começou a substituir a tradição teleológica que existia há muito tempo por uma criação completamente nova: a taxonomia absolutista, mas absurda, da orientação sexual. A heterossexualidade foi criada para servir como um ideal regulatório dessa estrutura fantasiosa, preservando as proibições sociais contra a sodomia e outras devassidões sexuais sem recorrer à natureza procriadora da sexualidade humana.
Nessa narrativa, os atos homossexuais não eram errados porque desprezam o propósito racional-animal que tem o sexo (a família), mas porque o desejo por tais atos supostamente surgem de uma desordem psicológica repugnante. Como o teórico queer Hanne Blank relata, "esse novo conceito [da heterossexualidade] apareceu de uma mistura bizarra de línguas mortas com sons impressionantes, provendo à antigas ortodoxias novas e vibrantes concessões sobre a vida ao sugerir em tons autoritativos que a ciência as pronunciou naturais, inevitáveis e inatas".
Orientação sexual não proveu uma base fidedigna para a virtude tal qual esperavam seus inventores, principalmente mais recentemente. Não obstante, muitos cristãos conservadores hoje sentem que devemos continuar a consagrar a divisão gay-hétero e o ideal heterossexual em nossa catequese popular, porque ela ainda parece a eles como a melhor forma de fazer com que as nossas crenças morais pareçam razoáveis a desejáveis.
Esses meus compatriotas cristãos estão errados ao se apegar tão fortemente à orientação sexual, confundindo essa apologia inédita e infrutífera para a castidade com os fundamentos eternos desta. Nós não precisamos de "heteronormatividade" para nos defendermos contra a devassidão. Muito pelo contrário, a heteronormatividade é um obstáculo.
Foucault, um aliado inesperado, detalha a genealogia da orientação sexual em sua obra 'A História da Sexualidade". Onde "sodomia" identificou por muito tempo um tipo de ações, pela primeira vez, de repente, na segunda metade do século XIX, o termo "homossexual" apareceu junto com o primeiro. Esse neologismo europeu foi usado de uma maneira que soaria para as gerações anteriores como um puro erro de categoria, designando não ações, mas pessoas, assim também como sua contraparte "heterossexual".
Psiquiatras e legisladores da segunda metade do século XIX, como relata Foucault, rejeitaram o entendimento clássico de que "perpetrador" de atos de sodomia era "nada mais do que uma nomenclatura jurídica para tais". Com o surgimento das sociedades seculares, e estas querendo deslegitimar publicamente as crenças religiosas clássicas, a pseudociência veio a substituir a religião como o fundamento moral para as normas venéreas. Para alcançar a estabilidade social sexual secularista, os médicos da época forjaram o que Foucault chama de uma "ordem natural de desordem".
"O homossexual do século XIX tornou-se um personagem", "um modelo de vida", uma "morfologia", escreve Foucault. Essa identidade psiquiátrica pervertida, elevada ao status de "uma forma de vida" mutante para se poder salvaguardar a sociedade educada de suas depravações, engoliu toda as características atribuídas: "Nada daquilo que ele [o homossexual] é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas".
Os imprudentes aristocratas que encorajaram essas inovações médicas mudaram a medida da moralidade pública, ao substituir a natureza humana com as nuances da religião pela opção secular mais segura das paixões individuais. Assim, eles foram obrigados a trocar a vigorosa tradição do direito natural pelo recém construído modelo de "normalidade psíquica", com a "heterossexualidade" servindo como o novo normal para a sexualidade humana. E, o que era previsível, tal padrão vago de normalidade oferecia uma sustentação muito mais frágil para a ética sexual do que a tradição clássica do direito natural.
Porém, o fato desse novo modelo ter sido enfatizado serviu para consolidar essas categorias de heterossexualidade e homossexualidade no imaginário popular. "A homossexualidade apareceu como uma das formas da sexualidade", relata Foucault, "quando foi transposta, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era uma aberração temporária, agora o homossexual é uma espécie". Orientação sexual, assim, não é nada a mais que um frágil constructo social, e um construído de forma terrivelmente recente.
Enquanto a nossa cultura popular ainda não chegou aí, os teóricos queer cada vez mais dão as cartas no nível das elites e já concordam com Foucault nesse assunto. Esses pensadores ecoam o pensamento herético (do ponto de vista LGBT) de Gore Vidal: "Na realidade, não existe algo como uma pessoa homossexual, assim como não existe algo como uma pessoa heterossexual". De fato, a divisão natural fixa entre as duas identidades tem se mostrado útil para os ativistas dos "direitos gays" em campo e não menos importante para o ethos de direitos civis que tais dinâmicas de poder invocam. Mas a maior parte dos teóricos queer, assim como a maior parte dos acadêmicos das diferentes humanidades e disciplinas sociais e comportamentais hoje, vão admitir que tais distinções são apenas constructos fluidos. Muitos desses campos tentam expor as credenciais falsas da orientação sexual e, parafraseando Nietzsche, para explica-las de forma genealógica de uma vez por todas.
Jonathan Ned Katz, um historiador da sexualidade da esquerda radical que ensinou em Yale e na New York University captura muito bem tal consenso da teoria queer em sua obra 'A Invenção da Heterossexualidade', em que ele explica: "Eu falo da invenção histórica da heterossexualidade para contestar firmemente a nossa comum suposição de uma heterossexualidade eterna, para sugerir uma condição histórica, instável e relativa a uma ideia e uma sexualidade que geralmente supomos terem sido gravadas na pedra há muito". E ele continua: "Ao contrário das biocrenças de hoje, o binário heterossexual-homossexual não reside na natureza, mas é socialmente construído, portanto desconstruível".
Meu prognóstico é que veremos esse binário completamente desconstruído ainda na geração atual. Mas a meu ver, nós que propomos a castidade cristã deveríamos ver essa destruição iminente da ruptura gay-hétero não como uma tragédia, mas como uma oportunidade. Mais que isso, eu quero sugerir que deveríamos nos empenhar pela dissolução da orientação sexual dentro das nossa próprias esferas subculturais sempre que possível.
Obviamente, tendo em vista a nossa imersão numa cultura para a qual essas categorias parecem tão naturais quanto a própria língua, desenraizá-los do nosso próprio vocabulário e cosmovisão será uma tarefa nada fácil. Por que se importar então? Contando que não sucumbamos aos atos pecaminosos, do que importa se as pessoas (inclusive os cristãos) continuam a se identificar como homossexuais e heterossexuais?
Primeiramente, dentro do essencialismo da orientação sexual, a distinção entre heterossexualidade e homossexualidade é uma construção que é desonesta sobre sua própria condição de construção. Essas classificações são mascaradas como categorias naturais, aplicáveis a todas as pessoas de todos os tempos e lugares de acordo com os objetos típicos de seus desejos sexuais (porém, talvez, com algumas opções a mais para os categorizadores politicamente corretos). Ao alegar não ser simplesmente uma invenção acidental do sec. XIX, mas uma verdade atemporal sobre a natureza sexual humana, essa acepção sobrevalorizada ilude àqueles que adotam seus rótulos, que acreditam que tais distinções são mais importantes do que realmente são.
Uma segunda razão para se duvidar desse esquema como algo que nós cristãos deveríamos usar prontamente é que sua introdução em nosso discurso sexual claramente não aumenta as virtudes, sejam intelectuais ou morais, daqueles que empregam tais conceitos. Pelo contrário, ele tem criado tanto uma obscuridade intelectual quanto um desequilíbrio moral.
Quanto ao primeiro, o essencialismo de orientação tornou a filosofia ética quase impossível: deslocou os princípios conjugais-procriativos de castidade sem oferecer nenhuma alternativa que não seja inteiramente arbitrária. A antiga perspectiva teleológica mensurava a moralidade nos termos da natureza racional-animal humana. No campo sexual, isso significava avaliar atos sexuais em referência ao bem comum do matrimônio, que integrava a união conjugal e a geração e criação de filhos. O novo sistema heteronormativo, por outro lado, não tem como explicar a depravação da sodomia homossexual a não ser por um argumento engasgado, condicionado e sem fundamentos que, não sendo justificado, se enfraqueceu consideravelmente ao longo do tempo.
Quanto ao segundo resultado, o desequilíbrio moral, a hegemonia da orientação sexual tem, de forma contraproducente, redirecionado nossa atenção cotidiana dos propósitos objetivos para as paixões subjetivas. Os jovens, por exemplo, hoje encontram-se regularmente em angústia sobre suas identidades sexuais e em autocomiseração por tentativas de discernir seus lugares nesse supostamente natural diagrama de orientações de Venn. Essas obsessões geram muito mais calor do que luz e fazem adolescentes já sexualmente excitados se concentrarem nas dimensões extrínsecas de suas próprias constituições sexuais. Essa auto-busca se torna ainda mais desnecessariamente dolorosa para aqueles que veem em si uma "orientação homossexual", ao adotarem uma identidade que se distingue essencialmente por um conjunto de desejos sexuais que não podem ser moralmente satisfeitos.
Há uma terceira razão pela qual essa categorização deveria ser descartada, esta, teológica: É oposta à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Meu futuro superior na vida religiosa, Pe. Hugh Barbour dos Padres Norbertinos, argumentou sobre essa ideia num ensaio na Chronicles Magazine, intitulado 'Do Homosexuals Exist? Or, Where Do We Go from Here?' (Existem homossexuais? Ou, Para Onde Vamos?). Como ele argumenta, "a teologia moral tradicional avaliava atos, e não generalizava de forma demasiadamente insatisfatória acerca das tendências que levavam a esses atos. Isso era deixado para a casuística das ocasiões de pecado e para a direção espiritual. Se o pecado fosse roubo, então o padrão de avaliação era cleptomania? Se fosse bebedice, alcoolismo? Se fosse preguiça, depressão clínica?" Mesmo os cristãos ortodoxos, ele escreve,
Autodescrever-se como "homossexual" tende a multiplicar ocasiões de pecado para aqueles que adotam o rótulo ao provocar, nas palavras do Padre, uma desnecessária "dramatização da tentação". Onde a infusão de virtudes teologais libertam o cristão, identificá-lo como homossexual apenas escraviza mais o pecador. Intensifica a concupiscência, uma triste distorção do amor, ao amplificar o sentido aparente dos desejos lascivos. Fomenta uma autopiedade desesperante, prejudicando a esperança, que deveria motivar virtudes morais. Além de encorajar um forte senso de direito, o que geralmente enfraquece a obediência da fé ao exigir a destruição das doutrinas que parecem reprimir "quem eu realmente sou".
Há um punhado de contra-exemplos louváveis para esse padrão desencorajante, pessoas que se identificam como "cristãos gays" que são tanto virtuosos, como fiéis aos ensinamentos da Igreja. Mas dada a tensão inerente entre a narrativa cristã e lógica da orientação sexual, não seria uma surpresa se esses louváveis isolados que tentam combinar essas duas tradições inconsonantes são a exceção e não a regra.
Batizar a identidade homossexual é repleto de perigos evitáveis. E ainda, no que diz respeito ao maior mal causado pelo binário da orientação sexual, a homossexualidade não é a culpada. A heterossexualidade a é (não que os dois males estejam separados, obviamente). Os aspectos mais perniciosos do sistema identitário da orientação é que ele tende a isentar os heterossexuais de qualquer avaliação moral. Se a homossexualidade nos vincula ao pecado, a heterossexualidade nos cega para o pecado.
Não há questão de que alguns "heterossexuais" moralmente autoconscientes existam. Todavia, como regra geral, identificar-se como uma pessoa heterossexual hoje em dia corresponde a declarar-se um membro do "grupo normal", contra o qual todos os desejos sexuais e atrações desviantes devem ser medidas. Essa heteroidentificação induz, portanto, a uma autoconfiança pateticamente acrítica e (não preciso nem dizer) sem merecimento, além de uma medida imprecisa para avaliar a tentação.
Naturalmente, nós temos uma norma que nos é modelo para a avaliação dos desvios sexuais. Porém esse modelo não é a heterossexualidade, é o próprio Cristo Jesus, o Deus-homem que tanto aperfeiçoou a natureza humana, quanto exemplificou sua perfeição, "aquele que em tudo foi tentado, porém não pecou". Que os autodeclarados heterossexuais substituam o Senhor em tal posição é o cúmulo da sandice.
É verdade que a homossexualidade pode ser distinguida por um inadequado desespero, ao se aceitar inclinações pecaminosas como constituintes de identidade e portanto, implicitamente, rejeitar a liberdade comprada para nós pelo sangue de Cristo. Mas a heterossexualidade, em suas pretensões de agir como norma para avaliar os nossos hábitos sexuais, é marcada por algo ainda pior: a Soberba, que São Tomás de Aquino classifica como a rainha de todos os vícios.
Existem razões práticas para ter cuidado com a heterossexualidade também. Pelo fato de que o nosso mundo pós-freudiano associa qualquer atração física e afeição interpessoal com o desejo erótico-genital, a amizade íntima entre pessoas do mesmo sexo e um casto apreço pela beleza do próprio sexo têm se tornado quase impossíveis de se alcançar (inclusive, Freud foi um dos mais influentes arquitetos desse vicioso mito essencialista da orientação).
Para "heterossexuais" em particular, aproximar-se de um amigo do mesmo sexo acaba parecendo perverso e ser tocado por sua beleza parece esquisito. Para evitar serem confundidas como gays, essas muitas pessoas autoproclamadas heterossexuais, especialmente os homens, se contentam com associações superficiais com seus camaradas e reservam o tipo de intimidade valiosa que originalmente caracterizava um relacionamento casto entre pessoas do mesmo sexo apenas aos seus parceiros românticos. Sua orientação sexual ostensivamente normal os rouba um aspecto essencial do florescimento humano: a amizade profunda.
Os mais antigos usos do termo "heterossexualidade" conferem maiores motivos para duvidar se devíamos celebrar essa ideia de forma tão entusiástica. É fato que até o final do século XIX, o rótulo algumas vezes era usado meramente para denotar o "sexo normal". Obviamente ainda tendemos a usar o termo dessa forma hoje e, como estou argumentando, isso é tragicamente confuso.
Mas outro proeminente significado do termo mais ou menos da época de sua invenção, incluindo o seu uso mais antigo registrado em inglês, em 1892, continua a orientar a nossa concepção distorcida de sexualidade humana, ainda que essa definição secundária tenha saído de moda. Nessa definição alternativa, a palavra não designa o "sexo normal", mas apenas uma espécie diferente de desvio sexual, como a contraparte homossexual em seu desdém pela reprodução, mas diferente no sentido do objeto típico de suas inclinações eróticas.
A infeliz história do termo "heterossexual" que temos escolhido esquecer é que esse termo chegou ao vernáculo ocidental como um rótulo para uma desordem de perversão sexual que se deleitava em atos sexuais essencialmente estéreis. Geralmente esses desejos eram para pessoas de sexo opostos, mas até mesmo essa linha era turva, porque, uma vez que o propósito gerativo do sexo foi rompido, de forma geral importava muito pouco quem era o parceiro de masturbação mútua do "heterossexual".
Nossos antepassados cristãos ficariam chocados com a nossa complacência com a questão da orientação sexual. A única razão pela qual todo esse programa não nos alarma como faria a eles é que fomos sistematicamente indoutrinados nele desde crianças, especialmente nossos jovens adultos. Porém, façamos uma analogia com algo ainda não tão familiar para nós. Consideremos como reagiríamos se um outro tipo de categoria adentrasse o nosso vocabulário cultural.
A revista online Slate recentemente publicou um artigo intitulado 'Is Polyamory a Choice?' [Poliamor é uma Escolha?], o qual argumentava que, além de inclinações em direção a homens ou mulheres, pode também haver constituições de orientação sexual no que diz respeito a uma fidelidade (e infidelidade) inata e imutável.
Imagine se as pessoas que se antevêem ser mais satisfeitas romanticamente por uma exclusividade sexual compromissada comecem a se identificar como "fiéis", enquanto aqueles que geralmente ficam mais empolgados com a perspectiva de uma promiscuidade sexual irrestrita comecem a se identificar como "infiéis". Não acharíamos que isso é problemático, especialmente quando mulheres e homens cristãos começarem a adotar a segunda definição para si, até mesmo exibindo o fato de que são "infiéis" como motivo para não se casar, já que eles não seriam suficientemente satisfeitos pela vida sexual para a qual estariam se comprometendo através dos votos matrimoniais?
"Infidelidade" obviamente está no papel da homossexualidade nessa analogia. Mas, mesmo que consideremos o número de parceiros sexuais ou a orientação de alguém, como não nos chocar quando os nossos irmãos cristãos adotam uma identidade para si que se distingue essencialmente do seu contraste por nada além de um tipo particular de tentação ao pecado? Isso é o oposto à liberdade cristã. É claro que todos nós estamos caídos e somos tentados e temos necessidade da ajuda divina. Mas enquanto continuamos a lutar contra essas tentações pecaminosas, a libertação das correntes do pecado, que nos reivindica como sua posse, nos foi dada em Cristo Jesus.
Nós não pertencemos mais às nossas transgressões. Então por que criar identidades para nós mesmos usando o pecado como critério? Eu não me importo com o quanto a promiscuidade possa ser atraente para você. Você enfaticamente não é "um infiel". É certo que poderíamos construir socialmente categorias que possam tornar essa forma de falar parecer óbvia e inata. Mas se o cristão fizer isso ou participar voluntariamente de uma estrutura assim, se esta for construída ao redor dele, ele estaria severamente enganado.
Eu não sou o meu pecado. Eu não sou a minha tentação ao pecado. Pelo sangue de Jesus Cristo eu fui libertado dessa amarra. Eu posso ter todos os tipos de identidade, com certeza, especialmente nesta nossa época desequilibradamente super-psicanalítica. Mas, no mínimo, nenhuma dessas identidades deveriam ser essencialmente definidas pela minha atração ao que me separa de Deus.
O outro lado dessa hipótese inspirada pelo Slate traz à luz os males peculiares da heterossexualidade. Além da nossa justificada desaprovação dos cristãos que desesperadamente se identificassem como "infiéis", não haveria algo ainda mais absurdo e depravado na vaidosa autoidentificação de cristãos como "fiéis"? Coloquemos da seguinte forma: O fato de que os meus desejos eróticos tendem a tomar somente uma única pessoa como objeto, ao invés de um vasto coletivo, necessariamente aponta para alguma qualidade moral inerente da minha parte? Aliás, será que sequer sinaliza que os meus desejos são virtuosos, ou será que simplesmente indica que por um acaso eu não sou fortemente tentado a um entre vários outros potenciais abusos lascivos? Assim como as pessoas chamadas "fiéis", os indivíduos "heterossexuais" não são arquétipos perfeitos de castidade apenas porque evitam "a armadilha incasta da última semana".
No entanto, apesar da falta de lógica disso tudo, as "pessoas hétero" tendem a receber mais vantagens sociais de sua definição sexual, o que torna o desmantelamento do esquema da orientação sexual uma ameaça maior a eles do que às suas contrapartes "gays" ou "lésbicas". Como Jenell Williams Paris da Messiah College escreve em seu livro 'The End of Sexual Identity' [O Fim da Identidade Sexual], "Ter a nossa humanidade mais do que categorias contemporâneas de identidade sexual como o fundamento para a ética sexual (…) vem com um custo para os heterossexuais", porque "coloca-os no jogo como jogadores ao invés de árbitros". No entanto, e por isso mesmo, são os autoproclamados heterossexuais que podem se tornar mais efetivos em assumir a vanguarda em investir contra o sistema de orientação sexual, sacrificando seu manto de segurança anticristão que é a "heterossexualidade" em nome do caritas in veritate [amor na verdade].
Ainda, se nós cristãos escolhermos nos juntar a esse entendimento ou não, com o tempo, o conceito de orientação sexual inevitavelmente vai sair de moda e perder a relevância. A nossa escolha é simplesmente se queremos ou não o mesmo para nós. Uma razão óbvia para seu ocaso inevitável é que os sentimentos são consideravelmente mais inconstantes do que os primeiros proponentes e agitadores psicossociais acreditavam. Suas categorias rígidas e definitivas se mostraram insuficientes diante das evidências empíricas.
Um segundo fator para o declínio da orientação sexual é que essas categorias hétero e homo não têm como sustentar logicamente as normas sexuais para as quais foram criadas. Os essencialistas de orientação originais não conseguiram nem oferecer uma razão coerente para defender a heterossexualidade em detrimento da homossexualidade, o que era o alicerce de sua posição. Sem mais nada, além de sensibilidades herdadas e uma ordem arbitrária, sua medida heteronormativa falhou onde sua antecessora procriadora tinha sucedido por séculos, em oferecer razões íntegras para as normas.
Falhas filosóficas condenaram a iniciativa da orientação sexual em toda a sua existência. Como o inadequado padrão heteronormativo deixa inteiramente intocadas várias instâncias lascivas entre pessoas de sexo oposto, pecados anteriormente considerados mortais, como a auto-satisfação egoísta, a pornografia, a fornicação, a contracepção e a sodomia masculina-feminina, foram progressivamente tolerados. No entanto, tendo em vista todas essas injunções citadas, compreensivelmente, começou a parecer inconsistente e portanto preconceituoso continuar insistindo em proscrições de práticas desviantes entre pessoas do mesmo sexo. A estrutura de orientação essencialista, que deveria ser uma defesa infalível contra a libertinagem homossexual, tornou-se assim a arma mais forte em seu arsenal.
O que nos leva à razão final e talvez mais surpreendente pela qual o conceito de orientação sexual vai cair: este quase esgotou sua utilidade política, algo que sempre teve uma data de validade. O plano dos conservadores morais do século XIX para a orientação saiu pela culatra, obviamente, quando o que se supunha serem condições psiquiátricas normativamente desiguais se tornaram identidades psicológicas moralmente indistinguíveis.
Entretanto, nem o liberalismo tem muito mais a ganhar com isso, já quem entre os casos Romer v. Evans, Lawrence v. Texas, United States v. Windsor e o ENDA [Em tradução livre: Ato Não-Discriminatório Empregatício], pouquíssimos casos de "direitos gays" ainda restam a ser resolvidos. O conceito de orientação ainda pode ter alguns poucos anos de capital político, mas muitos progressistas já ostentam que poderiam abandonar o mito das categorias naturais sem maiores problemas, tendo iniciado recentemente uma irresistível tendência liberadora que continuará a avançar com ou sem as categorias. Mais cedo ou mais tarde, esses pronunciamentos dos teóricos queer vão deixar suas torres de marfim e se tornarão também uma ortodoxia cultural.
Embora eu espere que muitos pensadores cristãos conservadores achem Foucault um estranho aliado, quero sugerir que o nossa cobeligerância com a esquerda radical neste assunto deveria ser entusiástico, embora também circunscrita cuidadosamente. Em essência, deveríamos ficar contentes ao juntar nossas vozes às dos teóricos queer pós-estruturalistas em suas vigorosas críticas aos ingênuos essencialistas da orientação sexual, que erroneamente pensam que "hétero" e "gay" são classificações naturais, neutras e atemporais.
Seu historicismo desiludido faz com que esses genealogistas sexuais se posicionem de forma singular de modo a enxergar os enganos e ilusões da orientação sexual. Enquanto nós cristãos não precisamos desse discurso da teoria queer de alguma forma essencial, ele pode, no entanto, de uma forma acidental, provar nos ser um grande aliado no presente. Ironicamente, esses esquerdistas radicais podem ser os únicos que podem curar a cegueira que, por falta de prudência, ultimamente nos infligimos ao adotar de forma acrítica a linguagem da hétero e da homossexualidade.
No entanto, embora possamos e devamos recomendar o diagnóstico dos teóricos queer sobre a absurdidade que infesta as nossas categorias sexuais hoje, não podemos, contudo, aderir ao seu plano de tratamento. Jonathan Ned Katz, Hanne Blank e outros teóricos queer contemporâneos de forma geral pretendem retratar de forma genealógica o rígido esquema da orientação sexual precisamente porque acreditam que isso lhes dará a liberdade e o poder de fazer, desfazer e refazer sua sexualidade como bem entenderem.
Eles querem desmantelar esses constructos sociais falidos não para que algo possa ser construído no lugar (ou, talvez, redescoberto meio ao entulho), mas porque eles esperam alcançar um nível ainda maior de libertinagem do que o que temos hoje, mesmo que o preço para isto seja ter que endossar uma espécie chula de niilismo sexual. Ressoando Dostoiévski, esses radicais gostariam de acreditar que se a orientação sexual não existe, então todas as coisas são possíveis.
O cristão não pode segui-los ladeira abaixo nesse caminho miserífico, obviamente. Mas ele tampouco pode, eu acredito, permanecer contentado com a enganosa e condenada taxonomia de orientação de orientação sexual que temos hoje. Lembrem-se do que estou dizendo: os teóricos queer darão um jeito de desmantelar a coisa em pouco tempo. Até a nossa cultura popular está começando a mostrar sinais de estresse aqui. A lista (de roupas pra lavar) cada vez maior de orientações demonstram a insuficiência dessas categorias nítidas e discretas. E o conceito agora familiar de "hasbian" sugere que essas identidades são bem menos estáticas do que antes fomos levados a acreditar (lembre-se, por exemplo, da nossa ex-homossexual, recente primeira dama de Nova Iorque).
A questão é quando essa estrutura de orientação sexual ruir, o que virá para tomar seu lugar: a ética niilista do tudo-liberado dos teóricos queer; ou a visão cristã clássica da qual tudo isso se afastou, a visão que toma o princípio conjugal-procriativo como sua finalidade e princípio organizador, avaliando as paixões em detrimento da natureza e não vice-versa?
Defender a castidade cristã hoje, penso eu, é dissociar a Igreja do falso absolutismo da identidade baseada na tendência erótica, e redescobrir o nosso próprio fundamento antropológico para princípios morais tradicionais. Se não quisermos sermos perder a relevância junto com os essencialistas de orientação modernos, precisamos lembrar ao mundo que a nossa ética sexual nunca se adaptou à estrutura moderna mesmo, e que, portanto, abandonar a estrutura não precisa levar à libertinagem niilista pós-moderna. Existe um terreno mais firme ao se aderir à tradição cristã clássica. Na verdade, parece-me o único lugar que ainda dá pra ficar.
A Bíblia nunca chamou a homossexualidade de abominação. E nem poderia, pois como vimos, o Levítico precede qualquer concepção de orientação sexual por pelo menos dois milênios. O que a Escritura condena é a sodomia, independente de quem a comete ou por quê. E ainda, como tenho dito, em nossa própria época, a homossexualidade merece o rótulo de abominável, mas a heterossexualidade também.
No que concerne à moralidade sexual, já estamos no ponto onde não é mais suficiente criticarmos as respostas medíocres da modernidade. Como o nosso Senhor nas narrativas dos evangelhos, também devemos corrigir as perguntas medíocres ou insatisfatórias que a modernidade faz. Ao invés de nos debater na problemática de como viver como "um cristão homossexual", ou também, a ainda mais problemática questão de como viver como um "cristão heterossexual", deveríamos estar ensinando os nossos irmãos cristãos, especialmente os que estão em seus anos mais formativos da adolescência, que não vale a pena usar essas categorias.
Elas são invenções recentes que são totalmente alheias à nossa fé, inadequadas para justificar normas sexuais e contraditórias a uma verdadeira antropologia filosófica. Chegou a hora de erradicarmos a orientação sexual da nossa cosmovisão da forma mais sistemática que pudermos, com toda a devida prudência aos casos particulares, é claro.
Se o Papa Francisco está certo quando diz que contextualizar o nosso discurso moral é um pré-requisito necessário para nos mostrarmos convincentes (e até mesmo inteligíveis) aos nossos interlocutores, então abandonar a heteronormatividade e ressuscitar a nossa própria tradição de castidade teleológico-familiar é a única forma de explicar adequadamente a ética sexual cristã.
Michael W. Hannon, escreve para a revista First Things e está se preparando para entrar na vida religiosa com os Norbertinos da St. Michael's Abbey em Orange County, nos Estados Unidos. Março de 2014. Tradução de Rafael de Oliveira Faria.
Ao longo de vários séculos, o Ocidente tem abandonado progressivamente a arquitetura conjugal do cristianismo para a sexualidade humana. Então, a cerca de 150 anos, começou a substituir a tradição teleológica que existia há muito tempo por uma criação completamente nova: a taxonomia absolutista, mas absurda, da orientação sexual. A heterossexualidade foi criada para servir como um ideal regulatório dessa estrutura fantasiosa, preservando as proibições sociais contra a sodomia e outras devassidões sexuais sem recorrer à natureza procriadora da sexualidade humana.
Nessa narrativa, os atos homossexuais não eram errados porque desprezam o propósito racional-animal que tem o sexo (a família), mas porque o desejo por tais atos supostamente surgem de uma desordem psicológica repugnante. Como o teórico queer Hanne Blank relata, "esse novo conceito [da heterossexualidade] apareceu de uma mistura bizarra de línguas mortas com sons impressionantes, provendo à antigas ortodoxias novas e vibrantes concessões sobre a vida ao sugerir em tons autoritativos que a ciência as pronunciou naturais, inevitáveis e inatas".
Orientação sexual não proveu uma base fidedigna para a virtude tal qual esperavam seus inventores, principalmente mais recentemente. Não obstante, muitos cristãos conservadores hoje sentem que devemos continuar a consagrar a divisão gay-hétero e o ideal heterossexual em nossa catequese popular, porque ela ainda parece a eles como a melhor forma de fazer com que as nossas crenças morais pareçam razoáveis a desejáveis.
Esses meus compatriotas cristãos estão errados ao se apegar tão fortemente à orientação sexual, confundindo essa apologia inédita e infrutífera para a castidade com os fundamentos eternos desta. Nós não precisamos de "heteronormatividade" para nos defendermos contra a devassidão. Muito pelo contrário, a heteronormatividade é um obstáculo.
Foucault, um aliado inesperado, detalha a genealogia da orientação sexual em sua obra 'A História da Sexualidade". Onde "sodomia" identificou por muito tempo um tipo de ações, pela primeira vez, de repente, na segunda metade do século XIX, o termo "homossexual" apareceu junto com o primeiro. Esse neologismo europeu foi usado de uma maneira que soaria para as gerações anteriores como um puro erro de categoria, designando não ações, mas pessoas, assim também como sua contraparte "heterossexual".
Psiquiatras e legisladores da segunda metade do século XIX, como relata Foucault, rejeitaram o entendimento clássico de que "perpetrador" de atos de sodomia era "nada mais do que uma nomenclatura jurídica para tais". Com o surgimento das sociedades seculares, e estas querendo deslegitimar publicamente as crenças religiosas clássicas, a pseudociência veio a substituir a religião como o fundamento moral para as normas venéreas. Para alcançar a estabilidade social sexual secularista, os médicos da época forjaram o que Foucault chama de uma "ordem natural de desordem".
"O homossexual do século XIX tornou-se um personagem", "um modelo de vida", uma "morfologia", escreve Foucault. Essa identidade psiquiátrica pervertida, elevada ao status de "uma forma de vida" mutante para se poder salvaguardar a sociedade educada de suas depravações, engoliu toda as características atribuídas: "Nada daquilo que ele [o homossexual] é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas".
Os imprudentes aristocratas que encorajaram essas inovações médicas mudaram a medida da moralidade pública, ao substituir a natureza humana com as nuances da religião pela opção secular mais segura das paixões individuais. Assim, eles foram obrigados a trocar a vigorosa tradição do direito natural pelo recém construído modelo de "normalidade psíquica", com a "heterossexualidade" servindo como o novo normal para a sexualidade humana. E, o que era previsível, tal padrão vago de normalidade oferecia uma sustentação muito mais frágil para a ética sexual do que a tradição clássica do direito natural.
Porém, o fato desse novo modelo ter sido enfatizado serviu para consolidar essas categorias de heterossexualidade e homossexualidade no imaginário popular. "A homossexualidade apareceu como uma das formas da sexualidade", relata Foucault, "quando foi transposta, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era uma aberração temporária, agora o homossexual é uma espécie". Orientação sexual, assim, não é nada a mais que um frágil constructo social, e um construído de forma terrivelmente recente.
Enquanto a nossa cultura popular ainda não chegou aí, os teóricos queer cada vez mais dão as cartas no nível das elites e já concordam com Foucault nesse assunto. Esses pensadores ecoam o pensamento herético (do ponto de vista LGBT) de Gore Vidal: "Na realidade, não existe algo como uma pessoa homossexual, assim como não existe algo como uma pessoa heterossexual". De fato, a divisão natural fixa entre as duas identidades tem se mostrado útil para os ativistas dos "direitos gays" em campo e não menos importante para o ethos de direitos civis que tais dinâmicas de poder invocam. Mas a maior parte dos teóricos queer, assim como a maior parte dos acadêmicos das diferentes humanidades e disciplinas sociais e comportamentais hoje, vão admitir que tais distinções são apenas constructos fluidos. Muitos desses campos tentam expor as credenciais falsas da orientação sexual e, parafraseando Nietzsche, para explica-las de forma genealógica de uma vez por todas.
Jonathan Ned Katz, um historiador da sexualidade da esquerda radical que ensinou em Yale e na New York University captura muito bem tal consenso da teoria queer em sua obra 'A Invenção da Heterossexualidade', em que ele explica: "Eu falo da invenção histórica da heterossexualidade para contestar firmemente a nossa comum suposição de uma heterossexualidade eterna, para sugerir uma condição histórica, instável e relativa a uma ideia e uma sexualidade que geralmente supomos terem sido gravadas na pedra há muito". E ele continua: "Ao contrário das biocrenças de hoje, o binário heterossexual-homossexual não reside na natureza, mas é socialmente construído, portanto desconstruível".
Meu prognóstico é que veremos esse binário completamente desconstruído ainda na geração atual. Mas a meu ver, nós que propomos a castidade cristã deveríamos ver essa destruição iminente da ruptura gay-hétero não como uma tragédia, mas como uma oportunidade. Mais que isso, eu quero sugerir que deveríamos nos empenhar pela dissolução da orientação sexual dentro das nossa próprias esferas subculturais sempre que possível.
Obviamente, tendo em vista a nossa imersão numa cultura para a qual essas categorias parecem tão naturais quanto a própria língua, desenraizá-los do nosso próprio vocabulário e cosmovisão será uma tarefa nada fácil. Por que se importar então? Contando que não sucumbamos aos atos pecaminosos, do que importa se as pessoas (inclusive os cristãos) continuam a se identificar como homossexuais e heterossexuais?
Primeiramente, dentro do essencialismo da orientação sexual, a distinção entre heterossexualidade e homossexualidade é uma construção que é desonesta sobre sua própria condição de construção. Essas classificações são mascaradas como categorias naturais, aplicáveis a todas as pessoas de todos os tempos e lugares de acordo com os objetos típicos de seus desejos sexuais (porém, talvez, com algumas opções a mais para os categorizadores politicamente corretos). Ao alegar não ser simplesmente uma invenção acidental do sec. XIX, mas uma verdade atemporal sobre a natureza sexual humana, essa acepção sobrevalorizada ilude àqueles que adotam seus rótulos, que acreditam que tais distinções são mais importantes do que realmente são.
Uma segunda razão para se duvidar desse esquema como algo que nós cristãos deveríamos usar prontamente é que sua introdução em nosso discurso sexual claramente não aumenta as virtudes, sejam intelectuais ou morais, daqueles que empregam tais conceitos. Pelo contrário, ele tem criado tanto uma obscuridade intelectual quanto um desequilíbrio moral.
Quanto ao primeiro, o essencialismo de orientação tornou a filosofia ética quase impossível: deslocou os princípios conjugais-procriativos de castidade sem oferecer nenhuma alternativa que não seja inteiramente arbitrária. A antiga perspectiva teleológica mensurava a moralidade nos termos da natureza racional-animal humana. No campo sexual, isso significava avaliar atos sexuais em referência ao bem comum do matrimônio, que integrava a união conjugal e a geração e criação de filhos. O novo sistema heteronormativo, por outro lado, não tem como explicar a depravação da sodomia homossexual a não ser por um argumento engasgado, condicionado e sem fundamentos que, não sendo justificado, se enfraqueceu consideravelmente ao longo do tempo.
Quanto ao segundo resultado, o desequilíbrio moral, a hegemonia da orientação sexual tem, de forma contraproducente, redirecionado nossa atenção cotidiana dos propósitos objetivos para as paixões subjetivas. Os jovens, por exemplo, hoje encontram-se regularmente em angústia sobre suas identidades sexuais e em autocomiseração por tentativas de discernir seus lugares nesse supostamente natural diagrama de orientações de Venn. Essas obsessões geram muito mais calor do que luz e fazem adolescentes já sexualmente excitados se concentrarem nas dimensões extrínsecas de suas próprias constituições sexuais. Essa auto-busca se torna ainda mais desnecessariamente dolorosa para aqueles que veem em si uma "orientação homossexual", ao adotarem uma identidade que se distingue essencialmente por um conjunto de desejos sexuais que não podem ser moralmente satisfeitos.
Há uma terceira razão pela qual essa categorização deveria ser descartada, esta, teológica: É oposta à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Meu futuro superior na vida religiosa, Pe. Hugh Barbour dos Padres Norbertinos, argumentou sobre essa ideia num ensaio na Chronicles Magazine, intitulado 'Do Homosexuals Exist? Or, Where Do We Go from Here?' (Existem homossexuais? Ou, Para Onde Vamos?). Como ele argumenta, "a teologia moral tradicional avaliava atos, e não generalizava de forma demasiadamente insatisfatória acerca das tendências que levavam a esses atos. Isso era deixado para a casuística das ocasiões de pecado e para a direção espiritual. Se o pecado fosse roubo, então o padrão de avaliação era cleptomania? Se fosse bebedice, alcoolismo? Se fosse preguiça, depressão clínica?" Mesmo os cristãos ortodoxos, ele escreve,
"cederam ao costume de tratar inclinações sexuais como identidades. Pastoralmente, deveríamos pregar a liberdade para a qual Cristo nos libertou. Ao tratarmos do pecado de sodomia como uma prova prima facie de uma identidade, não estamos, sob uma aparência externa de compaixão e sensibilidade, ajudando a vincular o pecador à sua inclinação de pecado e, assim, jogando nele um fardo demasiado grande de se carregar sozinho, já que não podemos levar por ele?"
Autodescrever-se como "homossexual" tende a multiplicar ocasiões de pecado para aqueles que adotam o rótulo ao provocar, nas palavras do Padre, uma desnecessária "dramatização da tentação". Onde a infusão de virtudes teologais libertam o cristão, identificá-lo como homossexual apenas escraviza mais o pecador. Intensifica a concupiscência, uma triste distorção do amor, ao amplificar o sentido aparente dos desejos lascivos. Fomenta uma autopiedade desesperante, prejudicando a esperança, que deveria motivar virtudes morais. Além de encorajar um forte senso de direito, o que geralmente enfraquece a obediência da fé ao exigir a destruição das doutrinas que parecem reprimir "quem eu realmente sou".
Há um punhado de contra-exemplos louváveis para esse padrão desencorajante, pessoas que se identificam como "cristãos gays" que são tanto virtuosos, como fiéis aos ensinamentos da Igreja. Mas dada a tensão inerente entre a narrativa cristã e lógica da orientação sexual, não seria uma surpresa se esses louváveis isolados que tentam combinar essas duas tradições inconsonantes são a exceção e não a regra.
Batizar a identidade homossexual é repleto de perigos evitáveis. E ainda, no que diz respeito ao maior mal causado pelo binário da orientação sexual, a homossexualidade não é a culpada. A heterossexualidade a é (não que os dois males estejam separados, obviamente). Os aspectos mais perniciosos do sistema identitário da orientação é que ele tende a isentar os heterossexuais de qualquer avaliação moral. Se a homossexualidade nos vincula ao pecado, a heterossexualidade nos cega para o pecado.
Não há questão de que alguns "heterossexuais" moralmente autoconscientes existam. Todavia, como regra geral, identificar-se como uma pessoa heterossexual hoje em dia corresponde a declarar-se um membro do "grupo normal", contra o qual todos os desejos sexuais e atrações desviantes devem ser medidas. Essa heteroidentificação induz, portanto, a uma autoconfiança pateticamente acrítica e (não preciso nem dizer) sem merecimento, além de uma medida imprecisa para avaliar a tentação.
Naturalmente, nós temos uma norma que nos é modelo para a avaliação dos desvios sexuais. Porém esse modelo não é a heterossexualidade, é o próprio Cristo Jesus, o Deus-homem que tanto aperfeiçoou a natureza humana, quanto exemplificou sua perfeição, "aquele que em tudo foi tentado, porém não pecou". Que os autodeclarados heterossexuais substituam o Senhor em tal posição é o cúmulo da sandice.
É verdade que a homossexualidade pode ser distinguida por um inadequado desespero, ao se aceitar inclinações pecaminosas como constituintes de identidade e portanto, implicitamente, rejeitar a liberdade comprada para nós pelo sangue de Cristo. Mas a heterossexualidade, em suas pretensões de agir como norma para avaliar os nossos hábitos sexuais, é marcada por algo ainda pior: a Soberba, que São Tomás de Aquino classifica como a rainha de todos os vícios.
Existem razões práticas para ter cuidado com a heterossexualidade também. Pelo fato de que o nosso mundo pós-freudiano associa qualquer atração física e afeição interpessoal com o desejo erótico-genital, a amizade íntima entre pessoas do mesmo sexo e um casto apreço pela beleza do próprio sexo têm se tornado quase impossíveis de se alcançar (inclusive, Freud foi um dos mais influentes arquitetos desse vicioso mito essencialista da orientação).
Para "heterossexuais" em particular, aproximar-se de um amigo do mesmo sexo acaba parecendo perverso e ser tocado por sua beleza parece esquisito. Para evitar serem confundidas como gays, essas muitas pessoas autoproclamadas heterossexuais, especialmente os homens, se contentam com associações superficiais com seus camaradas e reservam o tipo de intimidade valiosa que originalmente caracterizava um relacionamento casto entre pessoas do mesmo sexo apenas aos seus parceiros românticos. Sua orientação sexual ostensivamente normal os rouba um aspecto essencial do florescimento humano: a amizade profunda.
Os mais antigos usos do termo "heterossexualidade" conferem maiores motivos para duvidar se devíamos celebrar essa ideia de forma tão entusiástica. É fato que até o final do século XIX, o rótulo algumas vezes era usado meramente para denotar o "sexo normal". Obviamente ainda tendemos a usar o termo dessa forma hoje e, como estou argumentando, isso é tragicamente confuso.
Mas outro proeminente significado do termo mais ou menos da época de sua invenção, incluindo o seu uso mais antigo registrado em inglês, em 1892, continua a orientar a nossa concepção distorcida de sexualidade humana, ainda que essa definição secundária tenha saído de moda. Nessa definição alternativa, a palavra não designa o "sexo normal", mas apenas uma espécie diferente de desvio sexual, como a contraparte homossexual em seu desdém pela reprodução, mas diferente no sentido do objeto típico de suas inclinações eróticas.
A infeliz história do termo "heterossexual" que temos escolhido esquecer é que esse termo chegou ao vernáculo ocidental como um rótulo para uma desordem de perversão sexual que se deleitava em atos sexuais essencialmente estéreis. Geralmente esses desejos eram para pessoas de sexo opostos, mas até mesmo essa linha era turva, porque, uma vez que o propósito gerativo do sexo foi rompido, de forma geral importava muito pouco quem era o parceiro de masturbação mútua do "heterossexual".
Nossos antepassados cristãos ficariam chocados com a nossa complacência com a questão da orientação sexual. A única razão pela qual todo esse programa não nos alarma como faria a eles é que fomos sistematicamente indoutrinados nele desde crianças, especialmente nossos jovens adultos. Porém, façamos uma analogia com algo ainda não tão familiar para nós. Consideremos como reagiríamos se um outro tipo de categoria adentrasse o nosso vocabulário cultural.
A revista online Slate recentemente publicou um artigo intitulado 'Is Polyamory a Choice?' [Poliamor é uma Escolha?], o qual argumentava que, além de inclinações em direção a homens ou mulheres, pode também haver constituições de orientação sexual no que diz respeito a uma fidelidade (e infidelidade) inata e imutável.
Imagine se as pessoas que se antevêem ser mais satisfeitas romanticamente por uma exclusividade sexual compromissada comecem a se identificar como "fiéis", enquanto aqueles que geralmente ficam mais empolgados com a perspectiva de uma promiscuidade sexual irrestrita comecem a se identificar como "infiéis". Não acharíamos que isso é problemático, especialmente quando mulheres e homens cristãos começarem a adotar a segunda definição para si, até mesmo exibindo o fato de que são "infiéis" como motivo para não se casar, já que eles não seriam suficientemente satisfeitos pela vida sexual para a qual estariam se comprometendo através dos votos matrimoniais?
"Infidelidade" obviamente está no papel da homossexualidade nessa analogia. Mas, mesmo que consideremos o número de parceiros sexuais ou a orientação de alguém, como não nos chocar quando os nossos irmãos cristãos adotam uma identidade para si que se distingue essencialmente do seu contraste por nada além de um tipo particular de tentação ao pecado? Isso é o oposto à liberdade cristã. É claro que todos nós estamos caídos e somos tentados e temos necessidade da ajuda divina. Mas enquanto continuamos a lutar contra essas tentações pecaminosas, a libertação das correntes do pecado, que nos reivindica como sua posse, nos foi dada em Cristo Jesus.
Nós não pertencemos mais às nossas transgressões. Então por que criar identidades para nós mesmos usando o pecado como critério? Eu não me importo com o quanto a promiscuidade possa ser atraente para você. Você enfaticamente não é "um infiel". É certo que poderíamos construir socialmente categorias que possam tornar essa forma de falar parecer óbvia e inata. Mas se o cristão fizer isso ou participar voluntariamente de uma estrutura assim, se esta for construída ao redor dele, ele estaria severamente enganado.
Eu não sou o meu pecado. Eu não sou a minha tentação ao pecado. Pelo sangue de Jesus Cristo eu fui libertado dessa amarra. Eu posso ter todos os tipos de identidade, com certeza, especialmente nesta nossa época desequilibradamente super-psicanalítica. Mas, no mínimo, nenhuma dessas identidades deveriam ser essencialmente definidas pela minha atração ao que me separa de Deus.
O outro lado dessa hipótese inspirada pelo Slate traz à luz os males peculiares da heterossexualidade. Além da nossa justificada desaprovação dos cristãos que desesperadamente se identificassem como "infiéis", não haveria algo ainda mais absurdo e depravado na vaidosa autoidentificação de cristãos como "fiéis"? Coloquemos da seguinte forma: O fato de que os meus desejos eróticos tendem a tomar somente uma única pessoa como objeto, ao invés de um vasto coletivo, necessariamente aponta para alguma qualidade moral inerente da minha parte? Aliás, será que sequer sinaliza que os meus desejos são virtuosos, ou será que simplesmente indica que por um acaso eu não sou fortemente tentado a um entre vários outros potenciais abusos lascivos? Assim como as pessoas chamadas "fiéis", os indivíduos "heterossexuais" não são arquétipos perfeitos de castidade apenas porque evitam "a armadilha incasta da última semana".
No entanto, apesar da falta de lógica disso tudo, as "pessoas hétero" tendem a receber mais vantagens sociais de sua definição sexual, o que torna o desmantelamento do esquema da orientação sexual uma ameaça maior a eles do que às suas contrapartes "gays" ou "lésbicas". Como Jenell Williams Paris da Messiah College escreve em seu livro 'The End of Sexual Identity' [O Fim da Identidade Sexual], "Ter a nossa humanidade mais do que categorias contemporâneas de identidade sexual como o fundamento para a ética sexual (…) vem com um custo para os heterossexuais", porque "coloca-os no jogo como jogadores ao invés de árbitros". No entanto, e por isso mesmo, são os autoproclamados heterossexuais que podem se tornar mais efetivos em assumir a vanguarda em investir contra o sistema de orientação sexual, sacrificando seu manto de segurança anticristão que é a "heterossexualidade" em nome do caritas in veritate [amor na verdade].
Ainda, se nós cristãos escolhermos nos juntar a esse entendimento ou não, com o tempo, o conceito de orientação sexual inevitavelmente vai sair de moda e perder a relevância. A nossa escolha é simplesmente se queremos ou não o mesmo para nós. Uma razão óbvia para seu ocaso inevitável é que os sentimentos são consideravelmente mais inconstantes do que os primeiros proponentes e agitadores psicossociais acreditavam. Suas categorias rígidas e definitivas se mostraram insuficientes diante das evidências empíricas.
Um segundo fator para o declínio da orientação sexual é que essas categorias hétero e homo não têm como sustentar logicamente as normas sexuais para as quais foram criadas. Os essencialistas de orientação originais não conseguiram nem oferecer uma razão coerente para defender a heterossexualidade em detrimento da homossexualidade, o que era o alicerce de sua posição. Sem mais nada, além de sensibilidades herdadas e uma ordem arbitrária, sua medida heteronormativa falhou onde sua antecessora procriadora tinha sucedido por séculos, em oferecer razões íntegras para as normas.
Falhas filosóficas condenaram a iniciativa da orientação sexual em toda a sua existência. Como o inadequado padrão heteronormativo deixa inteiramente intocadas várias instâncias lascivas entre pessoas de sexo oposto, pecados anteriormente considerados mortais, como a auto-satisfação egoísta, a pornografia, a fornicação, a contracepção e a sodomia masculina-feminina, foram progressivamente tolerados. No entanto, tendo em vista todas essas injunções citadas, compreensivelmente, começou a parecer inconsistente e portanto preconceituoso continuar insistindo em proscrições de práticas desviantes entre pessoas do mesmo sexo. A estrutura de orientação essencialista, que deveria ser uma defesa infalível contra a libertinagem homossexual, tornou-se assim a arma mais forte em seu arsenal.
O que nos leva à razão final e talvez mais surpreendente pela qual o conceito de orientação sexual vai cair: este quase esgotou sua utilidade política, algo que sempre teve uma data de validade. O plano dos conservadores morais do século XIX para a orientação saiu pela culatra, obviamente, quando o que se supunha serem condições psiquiátricas normativamente desiguais se tornaram identidades psicológicas moralmente indistinguíveis.
Entretanto, nem o liberalismo tem muito mais a ganhar com isso, já quem entre os casos Romer v. Evans, Lawrence v. Texas, United States v. Windsor e o ENDA [Em tradução livre: Ato Não-Discriminatório Empregatício], pouquíssimos casos de "direitos gays" ainda restam a ser resolvidos. O conceito de orientação ainda pode ter alguns poucos anos de capital político, mas muitos progressistas já ostentam que poderiam abandonar o mito das categorias naturais sem maiores problemas, tendo iniciado recentemente uma irresistível tendência liberadora que continuará a avançar com ou sem as categorias. Mais cedo ou mais tarde, esses pronunciamentos dos teóricos queer vão deixar suas torres de marfim e se tornarão também uma ortodoxia cultural.
Embora eu espere que muitos pensadores cristãos conservadores achem Foucault um estranho aliado, quero sugerir que o nossa cobeligerância com a esquerda radical neste assunto deveria ser entusiástico, embora também circunscrita cuidadosamente. Em essência, deveríamos ficar contentes ao juntar nossas vozes às dos teóricos queer pós-estruturalistas em suas vigorosas críticas aos ingênuos essencialistas da orientação sexual, que erroneamente pensam que "hétero" e "gay" são classificações naturais, neutras e atemporais.
Seu historicismo desiludido faz com que esses genealogistas sexuais se posicionem de forma singular de modo a enxergar os enganos e ilusões da orientação sexual. Enquanto nós cristãos não precisamos desse discurso da teoria queer de alguma forma essencial, ele pode, no entanto, de uma forma acidental, provar nos ser um grande aliado no presente. Ironicamente, esses esquerdistas radicais podem ser os únicos que podem curar a cegueira que, por falta de prudência, ultimamente nos infligimos ao adotar de forma acrítica a linguagem da hétero e da homossexualidade.
No entanto, embora possamos e devamos recomendar o diagnóstico dos teóricos queer sobre a absurdidade que infesta as nossas categorias sexuais hoje, não podemos, contudo, aderir ao seu plano de tratamento. Jonathan Ned Katz, Hanne Blank e outros teóricos queer contemporâneos de forma geral pretendem retratar de forma genealógica o rígido esquema da orientação sexual precisamente porque acreditam que isso lhes dará a liberdade e o poder de fazer, desfazer e refazer sua sexualidade como bem entenderem.
Eles querem desmantelar esses constructos sociais falidos não para que algo possa ser construído no lugar (ou, talvez, redescoberto meio ao entulho), mas porque eles esperam alcançar um nível ainda maior de libertinagem do que o que temos hoje, mesmo que o preço para isto seja ter que endossar uma espécie chula de niilismo sexual. Ressoando Dostoiévski, esses radicais gostariam de acreditar que se a orientação sexual não existe, então todas as coisas são possíveis.
O cristão não pode segui-los ladeira abaixo nesse caminho miserífico, obviamente. Mas ele tampouco pode, eu acredito, permanecer contentado com a enganosa e condenada taxonomia de orientação de orientação sexual que temos hoje. Lembrem-se do que estou dizendo: os teóricos queer darão um jeito de desmantelar a coisa em pouco tempo. Até a nossa cultura popular está começando a mostrar sinais de estresse aqui. A lista (de roupas pra lavar) cada vez maior de orientações demonstram a insuficiência dessas categorias nítidas e discretas. E o conceito agora familiar de "hasbian" sugere que essas identidades são bem menos estáticas do que antes fomos levados a acreditar (lembre-se, por exemplo, da nossa ex-homossexual, recente primeira dama de Nova Iorque).
A questão é quando essa estrutura de orientação sexual ruir, o que virá para tomar seu lugar: a ética niilista do tudo-liberado dos teóricos queer; ou a visão cristã clássica da qual tudo isso se afastou, a visão que toma o princípio conjugal-procriativo como sua finalidade e princípio organizador, avaliando as paixões em detrimento da natureza e não vice-versa?
Defender a castidade cristã hoje, penso eu, é dissociar a Igreja do falso absolutismo da identidade baseada na tendência erótica, e redescobrir o nosso próprio fundamento antropológico para princípios morais tradicionais. Se não quisermos sermos perder a relevância junto com os essencialistas de orientação modernos, precisamos lembrar ao mundo que a nossa ética sexual nunca se adaptou à estrutura moderna mesmo, e que, portanto, abandonar a estrutura não precisa levar à libertinagem niilista pós-moderna. Existe um terreno mais firme ao se aderir à tradição cristã clássica. Na verdade, parece-me o único lugar que ainda dá pra ficar.
A Bíblia nunca chamou a homossexualidade de abominação. E nem poderia, pois como vimos, o Levítico precede qualquer concepção de orientação sexual por pelo menos dois milênios. O que a Escritura condena é a sodomia, independente de quem a comete ou por quê. E ainda, como tenho dito, em nossa própria época, a homossexualidade merece o rótulo de abominável, mas a heterossexualidade também.
No que concerne à moralidade sexual, já estamos no ponto onde não é mais suficiente criticarmos as respostas medíocres da modernidade. Como o nosso Senhor nas narrativas dos evangelhos, também devemos corrigir as perguntas medíocres ou insatisfatórias que a modernidade faz. Ao invés de nos debater na problemática de como viver como "um cristão homossexual", ou também, a ainda mais problemática questão de como viver como um "cristão heterossexual", deveríamos estar ensinando os nossos irmãos cristãos, especialmente os que estão em seus anos mais formativos da adolescência, que não vale a pena usar essas categorias.
Elas são invenções recentes que são totalmente alheias à nossa fé, inadequadas para justificar normas sexuais e contraditórias a uma verdadeira antropologia filosófica. Chegou a hora de erradicarmos a orientação sexual da nossa cosmovisão da forma mais sistemática que pudermos, com toda a devida prudência aos casos particulares, é claro.
Se o Papa Francisco está certo quando diz que contextualizar o nosso discurso moral é um pré-requisito necessário para nos mostrarmos convincentes (e até mesmo inteligíveis) aos nossos interlocutores, então abandonar a heteronormatividade e ressuscitar a nossa própria tradição de castidade teleológico-familiar é a única forma de explicar adequadamente a ética sexual cristã.
Michael W. Hannon, escreve para a revista First Things e está se preparando para entrar na vida religiosa com os Norbertinos da St. Michael's Abbey em Orange County, nos Estados Unidos. Março de 2014. Tradução de Rafael de Oliveira Faria.
