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| J. Gresham Machen |
A História Dominante
Poucos nomes são mais significantes na história do cristianismo estadunidense conservador do que J. Gresham Machen. Para os que não conhecem o nome, Machen foi um teólogo presbiteriano estadunidense do início do século XX que exerceu grande influência durante a controvérsia fundamentalista-modernista que dividiu as denominações nos EUA. Em particular, Machen frequentemente é considerado um dos grandes advogados do conservadorismo teológico, alguém que defendeu a verdade contra a crescente onda de liberalismo teológico em sua denominação presbiteriana e seminário reformado. Em seu livro ‘Cristianismo e Liberalismo’, ele afirma claramente que havia um abismo fundamental e irreparável entre a fé cristã histórica e o que ele identificava como movimento teológico liberal, que prontamente negava os fundamentos da fé cristã, como o nascimento virginal, os milagres e a ressurreição.
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| Machen Hall no Seminário Teológico Westminster |
Essa é a história que me foi ensinada, como membro de longa data da OPC e estudante numa instituição que leva o nome da WTS. Entretanto, ao pesquisar pessoalmente e desejar saber a verdade sobre o passado da melhor forma possível, eu descobri que essa história tem um lado completamente diferente e raramente reconhecido.
A História Oculta
Em carta à sua mãe datada de 5 de outubro de 1913, Machen escreve sobre um ocorrido tumultuoso no Seminário Teológico de Princeton: um “homem de cor” que seria integrado ao dormitório do seminário.
“…sempre que um dormitório estiver vazio, há a chance dele [o homem de cor] se mudar para cá. Se eu tiver que fazer alguma objeção, agora é a hora. É claro que se ele vier, eu posso simplesmente o tirar daqui, o que seria um grande sacrifício para mim.”Em sua carta, Machen explica que ele “enfaticamente se opõe” à integração das pessoas de cor nos dormitórios porque a “intimidade da relação dos homens nos mesmos dormitórios, os quais possuem apenas um banheiro, excede, em alguns sentidos pelo menos, à intimidade do companheirismo à mesa”.
Na verdade, Machen sinaliza para o princípio “separados, mas iguais” da infame decisão judicial ‘Plessy v. Ferguson Supreme Court’ [Plessy contra a Suprema Corte de Ferguson] ao afirmar que “a questão não é como se aqui [o Seminário de Princeton] fosse o único lugar para o qual eles [os negros] poderiam vir para serem educados ministerialmente”, citando instituições teológicas negras existentes na época.
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| B.B. Warfield |
Por fim, enquanto Machen afirma que os docentes concordam com ele em relação à segregação racial dos dormitórios, ele observa que alguns desses professores eram “simpatizantes” dos direitos civis dos negros, e que direitos igualitários para negros são um perigo para a vivência do homem branco:
“É verdade que alguns deles são ‘simpatizantes’ dos direitos civis de negros. Eu sempre fico intensamente irado quando ouço pessoas falarem eloquentemente sobre direitos civis iguais para negros, quando em muitas partes do Sul esses direitos iguais significariam que cada legislador e cada juiz seriam do tipo selvagem (...) e os homens brancos estariam menos seguros em partes deste país do que (...) na maior parte do mundo onde a proteção de seu governo de origem está com eles”
Teologia Branca Desmascarada
Embora essa seja uma carta privada entre Machen e sua mãe, os eventos e ações mencionadas nela não são privados. A posição de Machen com relação à segregação racial é perfeitamente clara e adiciona uma camada totalmente nova à narrativa histórica sobre ele. Ele não era simplesmente um defensor da teologia reformada e conservadora, mas um defensor aberto e eloquente da segregação racial e desaprovava os direitos civis de um grupo inteiro de semelhantes portadores da imagem de Deus. Suas ações tiveram vastas consequências institucionais e sistêmicas no seminário e além dele.
Ademais, seus sentimentos e ações acerca dessas questões, como segregação racial e direitos civis, não eram não-teológicas ou neutras do ponto de vista teológico. Este é um claro exemplo de um homem que permitiu que seu cativeiro cultural redefinisse, modelasse e até desfizesse princípios do evangelho do núcleo da fé cristã. A teologia branca é simplesmente isto: a reformulação da fé cristã e do próprio evangelho para acomodar a hegemonia, o privilégio, a normatividade e até a supremacia do autoimposto status de branquitude. A fé cristã foi moldada nos ideais de como Machen pensava que o mundo deveria funcionar e como grupos humanos deveriam ou não se relacionar uns com os outros. Sua teologia confessional (aquilo que ele dizia acreditar) e sua teologia prática e empírica (o que ele vivia no dia a dia) nunca foram mais claramente separadas do que neste caso.
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| R.L. Dabney, teólogo reformado, pastor e ávido defensor da escravidão |
Talvez o fato mais pérfido da teologia Branca, no entanto, seja que ela prospera exatamente ao mascarar ou distorcer a verdade para proteger a si mesma de críticas honestas e justas. Não apenas Machen, mas muitos teólogos brancos e europeus nos círculos reformados e evangélicos conservadores são frequentemente pintados como as vozes padrão e definitivas de toda teologia que é boa, objetiva e imparcial. Vozes de cristãos não-brancos são vistas, na melhor das hipóteses, como supérfluas e, na pior das hipóteses, ilegítimas do ponto de vista teológico. Falhas morais alegadas ou reais da parte de teólogos de cor são usadas para questionar sua ortodoxia, enquanto pecados dos mesmos tipos em teólogos brancos são justificados por serem “produtos de seu tempo”.
Em Direção à uma Narrativa Histórica Honesta
O fato de que Machen ostentava uma ortodoxia teológica e, ao mesmo tempo, mantinha firmemente convicções segregacionistas deveria nos fazer todos parar e pensar sobre como contar a história dos nossos próprios heróis e heroínas da teologia, e deveríamos pensar sobre quem consideramos nossos adversários teológicos. Deveríamos considerar se já engrandecemos equivocadamente alguns da nossa própria tribo, ao mesmo tempo em que injustamente derrubamos outros. Será que criamos uma atmosfera de orgulho espiritual e teológico? Será que ensinamos a história da forma mais honesta possível, ou mascaramos os fatos que inconvenientemente minam nossas posições de credibilidade e autoridade? Os cristãos, enquanto gente que acredita que a verdade liberta, deveriam ser mais dispostos e interessados em contar a história da forma mais honesta possível: as coisas boas, as ruins e as feias. Só assim nós poderemos apreciar a verdade onde ela for contada e lamentar pelo pecado onde ele for encontrado.
Timothy I. Cho, 8 de setembro de 2018
Referência: Machen, J. Gresham. “Machen to Mother”. Recebido por Timothy Isaiah Cho dos Arquivos da Biblioteca Montgomery, no seminário Teológico Westminster, datado de 5 de outubro de 1913.
Tradução: Rafael Faria



