terça-feira, 12 de março de 2019

O cristianismo da grande comissão afasta pessoas negras do movimento evangélico

O cristianismo da Grande Comissão e o cristianismo da Redenção Cósmica

Desde 1994, pesquiso sobre a ineficiência do movimento evangélico em integrar [racialmente] suas igrejas suas e suas instituições após o Movimento dos Direitos Civis. As forças armadas dos EUA, os esportes profissionais, as artes, cinema, negócios, os profissionais de saúde, et cetera, todos tiveram avanços em termos de diversidade racial desde 1965. O movimento evangélico, no entanto, permanece tão branco hoje quanto era quando Tom Skinner discursou sobre raça e movimento evangélico na cidade de Urbana, em 1971. Pouco mudou. Depois de 20 anos de observações, minha conclusão é que a redução evangélica da missão do cristianismo ao conceito extra-bíblico de “grande comissão” serve como um obstáculo, prevenindo muitos evangélicos brancos de conectarem o evangelho com as experiências vividas das pessoas afro-americanas.

Refiro-me a isso como “cristianismo da grande comissão”. Ele não é herético, não é necessariamente errôneo, é acidentalmente deficiente.

Embora o termo “grande comissão” não seja encontrado em lugar algum da Bíblia, ele tem sido defendido pelos evangélicos como a essência imperativa da missão cristã. O problema exegético, contudo, é que o termo “ide” em Mateus 28:16-20 não é de fato um imperativo, é um particípio. De acordo com Robert Culver, a gramática grega simplesmente não sustenta “ide” nessa forma imperativa, a menos que você esteja partindo de uma exegese com uma agenda avivalista para ler o texto. Devidamente traduzido, o versículo diria “indo” ou “ao ir” (por todo o mundo...). O particípio aoristo não funciona como um imperativo neste texto e, portanto, o chamado para “ir” não se refere a uma ação particular de certos indivíduos que irão fisicamente para algum lugar específico. Isso não significa que os cristãos não deveriam “ir” de forma intencional. O trabalho de discipulado da igreja é um chamado distinto e um imperativo exegético ao longo do texto bíblico. Mas o cristianismo da grande comissão é uma visão limitada do evangelho, do reino, da redenção, que parece poder manter permanentemente o movimento evangélico como um dos únicos espaços predominantemente brancos nos Estados Unidos.

O cristianismo da grande comissão


O domínio da “grande comissão” como uma convocação para a obra da igreja no mundo é frequentemente atribuído ao missionário batista William Carey. Entretanto, como Robbie Castleman observa,
Acontece que essa passagem pode ter recebido seu título descritivo de um missionário holandês, Justinian von Welz (1621-1688), mas foi Hudson Taylor, quase 200 anos depois, quem popularizou o uso de ‘A Grande Comissão’. Parece, assim, que Welz ou algum outro missionário pós-reforma tenha provavelmente cunhado o termo ‘a grande comissão’ e o movimento evangélico atual herdou um slogan que é mais uma desvantagem do que eles podem imaginar.
Há um sumário bem aceito de um dos melhores exemplos de como o cristianismo da grande comissão vê a narrativa cristã. Para o cristianismo da grande comissão, o evangelho é “o anúncio das boas novas da obra de Jesus para restaurar os portadores da imagem de Deus pecadores à correta adoração a Deus”. O reino de Deus é “o governo de Deus demonstrado na terra entre um povo em adoração”. E redenção é “a obra de Deus para libertar seu povo da escravidão”. Repito, essa visão não está errada, é apenas limitada em sua aplicação. Sua ideia fixa sobre salvação individual e sobre o papel da igreja não diz nada acerca da redenção da criação, a qual Deus também está reconciliando consigo mesmo através de Cristo

O cristianismo da redenção cósmica


A visão alternativa é a que chamo de “cristianismo da redenção cósmica”. Em sua essência, este é uma visão redentiva-histórica do evangelho. A forma como Tim Keller define o evangelho é um ótimo exemplo: “Através da pessoa e da obra de Jesus Cristo, Deus nos dá salvação plena, resgatando-nos do julgamento do pecado e levando-nos à comunhão com ele, restaurando toda a criação, na qual podemos usufruir da nossa nova vida com ele para sempre”. A diferença é sutil, mas gigantesca em sua implicação para a vivência negra nos EUA.

A referência sobre a restauração de toda a criação é a chave. O cristianismo da grande comissão infelizmente não inclui a criação, o reino ou a redenção como partes necessárias do evangelho. O fato de deixar de fora a “criação” explica por que o cristianismo da grande comissão tem tantos problemas em encorajar o envolvimento cristão com questões sociais.

Eu definiria o evangelho dizendo que ele é as boas novas da obra salvadora de Deus em Cristo e no Espírito, pela qual os poderes do pecado, morte e julgamento são vencidos e a vida da nova criação é inaugurada, num movimento em direção à glorificação de todo o cosmo. O reino de Deus é o seu reinado dinamicamente ativo na história humana, através de Jesus Cristo, sobre todo o cosmo. Redenção, então, é a obra de Deus de restaurar inteiramente a criação para si.

O cristianismo da redenção cósmica, como uma abordagem redentiva-histórica, busca chamar o povo de Deus para ele mesmo através do evangelismo e libertar a criação do poder do diabo até que Cristo retorne.

A tradição reformada tem reconhecido que Deus se importa com tudo na criação que foi afetado em Genesis 3 e que Deus pretende redimir todas as coisas, “até aonde o mal houver alcançado”. Redenção é uma história pactual abrangendo tudo na criação.

Gerard Van Groninigen explica em seu livro ‘Criação e Consumação’ que a criação (o “cosmo”) inclui indústria, tecnologia, recreação, artes, educação, comércio, política, et cetera. Esse é o “reino cósmico” de Deus. Como resultado disso, vidas negras importam para Deus, situações de pobreza importam para Deus, violência por armas de fogo importa para Deus, racismo importa para Deus, divórcio, abuso infantil, genocídio e tráfico sexual importam para Deus. O cristianismo da grande comissão continua incompleto e, em grande parte, inútil para a vivência negra, porque o povo de Deus foi comissionado a ter domínio sobre o mundo tendo como objetivo sua atual libertação, e não apenas para a salvação espiritual. Questões de justiça na sociedade são, para os cristãos, questões de libertação da criação em relação à obra diabo. A ideia fixa do cristianismo da grande comissão no evangelismo obscurece essa realidade.

A destruição do reino parasitatário


Van Groningen explica que Genesis 1 e 2 ensina que a humanidade “deveria estar envolvida nas descobertas, nos desdobramentos, nos florescimentos, nos desenvolvimentos das potencialidades (...) das forças e das leis que Deus incluiu em seu Reino cósmico”. Ou seja, Deus criou as pessoas humanas “para serem culturalmente ativas e produtivas” até que “o reino cósmico seja renovada por um evento súbito e cataclísmico” quando Jesus voltar. A queda introduziu “o reino de Satanás” na criação. Tim Keller explica: “Quando a humanidade caiu com o pecado, a ordem criada, de alguma forma, participou daquela queda. Agora está “entregue à inutilidade”. Tudo na criação sofre restrições [Romanos 8:20]. A natureza não é o que ela deveria ser, ou o que foi criada para ser”.

Satanás pretende destruir todas as coisas boas do reino cósmico de Deus. Seu reino é parasitário e, começando em Genesis 4, vemos que todas as formas de injustiça em toda a história humana começaram ali.

Van Groningen lembra-nos que “a primeira mensagem de redenção”, anunciada em Genesis 3:15, não era apenas uma “atividade messiânica redentiva”, mas era também um anúncio do julgamento final e da destruição do reino parasitário. É aí que o evangelho da redenção começa. Os teólogos chamam isso de “protoevangelum”. É a primeira indicação de que Deus pretende recuperar e redimir o que a queda amaldiçoou.

Até que Cristo retorne, observa Van Groningen, a antítese entre Deus e Satanás, “deve ser reconhecida e enfrentada na espiritualidade, mas também em todos os aspectos das atividades sociais e cósmicas (...) pelos crentes que buscam cumprir seus mandatos espirituais, sociais e cósmicos”. Por isso, os cristãos não devem perguntar-se se certos assuntos relacionados à justiça são ou não “questões relacionadas ao evangelho”. Para o cristianismo da redenção cósmica, Deus trazendo justiça aqui e agora é um aspecto do anúncio da redenção de seu reino cósmico sob o senhorio de Jesus Cristo.

O cristianismo da grande comissão não precisa de justiça social.


O cristianismo da grande comissão não costuma pregar uma redenção de toda a criação. Nunca pregaram. O cristianismo da grande comissão pregou um evangelho incompleto, avivalista e individualista para escravos nas plantations e não tinha intenção de libertá-los da escravidão. O cristianismo da grande comissão não fez nada para impedir e lutar contra os linchamentos públicos de negros durante o período da Reconstrução. Ele não fez nada para libertar os negros de Jim Crow. Na verdade, ele fez exatamente o oposto. Eram geralmente membros de igrejas do cristianismo da grande comissão no Sul os que lutavam contra o Movimento de Direitos Civis liderado pela igreja negra. Se comparar com as recentes tensões raciais nos EUA, você encontrará um paralelo. Os defensores do cristianismo da grande comissão foram incapazes de responder bem ao que aconteceu em Ferguson, Missouri. Não é de admirar que os afro-americanos (como Lecrae) que já se alinharam com o cristianismo da grande comissão, “divorciaram-se” do movimento evangélico branco.

Para obter participação nas questões sociais dos cristãos, o cristianismo da grande comissão justifica seu encorajamento às obras de justiça sob as lentes do evangelismo, o que efetivamente ignora o sofrimento real que vem pelas mãos da injustiça. Como resultado, provavelmente o cristianismo da grande comissão nos EUA sempre será uma religião predominantemente para gente branca que nunca sofreu as mazelas sistêmicas e culturais estadunidenses do reino parasitário e seus surtos prolongados. Isto é, um dos privilégios de ser branco nos EUA é nunca precisar que Deus intervenha por você nas obras do reino parasitário que está operando através das estruturas sociais estadunidenses. É, ainda, nunca precisar que Deus intervenha por você nas obras do reino parasitário enquanto ele avança através das formas normativas de opressão da supremacia branca.

Isso tem alguma precedência na história dos EUA. Durante a Era Fundamentalista, foi o cristianismo da grande comissão que impediu que os evangélicos brancos se unificassem aos evangélicos negros porque os fundamentalistas não viam o racismo estrutural como uma “questão do evangelho”. Historicamente, a igreja negra tem sido a melhor representação estadunidense do cristianismo da redenção cósmica, desde a escravidão e do Movimento dos Direitos Civis, e mudou os EUA para sempre.

A igreja negra incorpora o cristianismo da redenção cósmica.


Não é de surpreender que em 2018 os negros tenham sido nomeados “os mais engajados com a Bíblia nos EUA”. Os cristãos negros têm tido a necessidade de se relacionar com todo o cânon da Bíblia para compreender todos os aspectos da vida, tanto nos âmbitos pessoais, como nos sociais, diferentemente das pessoas brancas. Para os cristãos negros, a Bíblia não apenas trouxe muitos para a união com Cristo, mas também nos ajuda a navegar através das atividades do reino parasitário nos EUA. O cristianismo da redenção cósmica sabe que todas as injustiças ao redor do mundo e na igreja são “questões do evangelho”, porque o evangelho, em sua essência, é o chamado de Deus ao seu povo para si e a libertação da criação. Reivindicar domínio sobre a injustiça não é, portanto, uma “implicação do evangelho”. Mais do que isso, é uma parte fundamental do evangelho.

Enquanto o cristianismo da grande comissão mantiver seu evangelho incompleto, avivalista e individualista no centro do evangelicalismo, o êxodo silencioso de pessoas afro-americanas deixando os contextos evangélicos vai continuar. A recusa da maior parte do movimento evangélico conservador em valorizar a libertação da criação como também sendo central ao evangelho é a razão teológica pela qual ele não avançou substancialmente nas questões raciais desde 1970. O evangelho da redenção cósmica inclui o chamado de Deus ao seu povo para si e a redenção de todo o cosmo. Isso inclui o evangelho redentivo e histórico que começou no Jardim do Éden e alcançará todas as tribos, nações e línguas num mundo em guerra com o reino parasitário até a consumação do reino de Deus no retorno de Jesus Cristo.

Anthony Bradley, autor estadunidense e professor de religião, teologia e ética na King’s College, na cidade de Nova Iorque. Também é professor adjunto no programa de Estudos Religiosos e Teológicos. 

Segue link para o texto original: https://www.fathommag.com/stories/the-great-commission-christianity-keeps-blacks-away-from-evangelicalism  

Segue o link para uma palestra do Dr. Anthony Bradley sobre o mesmo assunto:
http://www.youtube.com/watch?v=GXQBniBQHmo


Tradução: Rafael Faria