quinta-feira, 5 de julho de 2018

Eminentes Acadêmicos Bíblicos e o Ministério Feminino

Alguns cristãos pensam que somente pessoas que têm uma “abordagem negligente da escritura” podem acreditar que mulheres deveriam ser líderes e mestras na igreja. Duvido seriamente que qualquer cristão evangélico consideraria que estes acadêmicos e teólogos tenham uma abordagem negligente da escritura e, entretanto, cada um deles acredita que mulheres devidamente capacitadas deveriam ser líderes e mestras na igreja. Seguem alguns exemplos de declarações feitas por esses acadêmicos de destaque (alguns já faleceram).

F.F. Bruce (1910-1990)

F.F. Bruce foi o Rylands Professor de Crítica Bíblica e Exegese na Universidade de Manchester e pertencia à igreja evangélica Open Brethren
“Um apelo aos primeiros princípios em nossa aplicação do Novo Testamento pode exigir o reconhecimento de que quando o Espírito, em seu soberano contentamento, concede variados dons aos indivíduos crentes, esses dons devem ser exercidos para o bem-estar de toda a igreja. Se o Espírito demonstradamente houvesse negado os dons de ensino e liderança às mulheres cristãs, aceitaríamos isso como evidência de sua vontade (1Co 12:11). Mas a prática mostra que ele concedeu estes e outros dons com ‘consideração indistinguível’ para homens e mulheres de forma igual (não para todas as mulheres, obviamente, e nem para todos os homens). Sendo assim, é insatisfatório permanecer impassível no que diz respeito à questão do ministério feminino, no qual elas são permitidas orar e profetizar, mas não ensinar ou liderar.”
F.F. Bruce. ‘Women in the Church: A Biblical Survey’ In: Christian Brethren Review 33 (1982). Páginas 7-14, 11-12. (Fonte)

Gordon D. Fee (nasc. 1934)

Professor Emérito de Novo Testamento no Regent College, ordenado na Assembleia de Deus
“É um triste fenômeno para a igreja e sua visão sobre o Espírito Santo o fato de que a liderança e o sacerdócio ‘oficial’ possam vir apenas de metade da comunidade de fé. A evidência neotestamentária é de que o Espírito Santo não faz distinção de gênero, derramando os dons tanto aos homens quanto às mulheres e, assim, potencialmente tornando todo o corpo livre para que todas as partes possam ministrar e de diversas maneiras darem a liderança uns aos outros. Minha questão, portanto, não é uma pauta feminista: a defesa das mulheres no ministério, mas uma pauta do Espírito, um apelo pela liberação do Espírito de nossas escrituras e estruturas para que a igreja possa ministrar a si mesma e ao mundo de forma mais efetiva.”
'The Priority of Spirit Gifting for Church Ministry’ In: Ronald W. Pierce, Rebecca Merrill Groothuis, Gordon D. Fee (editores). Discovering Biblical Equality Complementarity without Hierarchy. Leicester: IVP Academic, 2005. P. 254

Craig S. Keener (nasc. 1960)

Professor de Novo Testamento no Seminário Teológico Asbury, ordenado ministro numa igreja batista afro-americana, ministra de acordo com uma variedade de tradições.
“(...) Nós, pentecostais e carismáticos, afirmamos que a autoridade do ministério é inerente ao chamado do ministro ou ministra e ao ministério da Palavra, não ao ministério da pessoa. Nesse caso, o gênero deveria para nós, assim como era para Paulo, ser uma questão irrelevante a se concentrar com relação ao ministério. (...) Hoje devemos afirmar aqueles a quem Deus chama, seja homem ou mulher, e os encorajar ao aprender lealmente deles a Palavra de Deus. Precisamos afirmar todos os trabalhadores leais, tanto homens, quanto mulheres, para os abundantes campos de colheita.”
'Was Paul For or Against Women in Ministry?’ In: Enrichment Journal, Spring 2001. (Fonte)

Ian Howard Marshall (1934-2015)

Professor Emérito de Exegese do Novo Testamento da Universidade de Aberdeen, membro da Igreja Metodista Evangélica
“Há muita angústia nas mulheres que são proibidas de expressarem seus talentos dados por Deus. A causa disso é a falta de habilidade dos complementaristas em prover quaisquer motivos coerentes e convincentes para negar às mulheres tais posições de liderança nas igrejas. É exigido que elas aceitem uma ordem da escritura apenas porque é a vontade de Deus, mesmo que não possam entender por que é assim. Outra causa é a arbitrariedade da forma em que a norma é executada, que excede muito o que a Escritura realmente diz, bem como a casuística empregada com relação aos limites do que as mulheres podem ou não fazer."
Comentários feitos numa mesa de discussão no encontro da Evangelical Theological Society de 2010. (Fonte)

Leon Morris (1914-2006)

Especialista em Novo Testamento, ministro anglicano
Em seu comentário à carta de Paulo aos Romanos, Morris declarou que “Febe é sem dúvidas chamada de diaconisa” em Romanos 16:1. E Júnia (mencionada em Romanos 16:7) com Andrônico “se destacam entre os apóstolos, o que pode significar que os apóstolos os tinham em alta estima, ou que eles eram apóstolos e eminentes como tais”. Morris ainda diz que “o primeiro sentido parece menos provável”.
The Epistle to the Romans. Grand Rapids: Eerdmans, 1988. Páginas 529 e 534.
Morris também escreveu ensaios defendendo o ministério feminino e recebeu mulheres no Ridley Theological College na Austrália, onde foi diretor de 1964 até sua aposentadoria em 1976.

John Stott (1921-2011)

Ministro anglicano, teólogo, um dos principais autores do Pacto de Lausanne em 1974
“Se Deus dotou mulheres com dons espirituais (o que é verdade) e, portanto, as chama para exercer seus dons para o bem comum (o que é verdade), a Igreja deve reconhecer os dons e o chamado de Deus, deve disponibilizar esferas de serviço para mulheres e deve ‘ordená-las’ (comissioná-las e autorizá-las) a exercer seu ministério dado por Deus, no mínimo na condição de equipes. Nossas doutrinas cristãs de Criação e Redenção nos dizem que Deus quer que seu povo com seus dons seja efetivado, e não frustrado, e que sua igreja seja enriquecida pelo seu serviço.”
John R.W. Stott, Issues facing Christianity Today. Basingstoke: Marshalls, 1984. P. 254. (Livro editado no Brasil pela editora Ultimato como ‘Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos')

Ben Witherington III (nasc. 1951)

Professor de Interpretação do Novo Testamento no Seminário Teológico Asbury, pastor metodista
“Devemos sempre ter em mente que o que determina ou deveria determinar as estruturas de liderança na igreja não é o gênero, mas os dons e graças do Espírito Santo. A família da fé não é idêntica à família física e o gênero não determina os papeis de cada um nela. O gênero obviamente afeta alguns papeis na família cristã, mas é irrelevante no que diz respeito à discussão da estrutura de liderança na igreja. É por isso que não deveríamos nos surpreender ao encontrarmos até mesmo nas cartas paulinas exemplos de mulheres mestras, evangelistas, profetizas, diaconisas e apóstolas. Paulo não está interessado em batizar e ratificar a ordem patriarcal existente. Uma coisa que deixa explícita a opinião de Paulo sobre o esse tipo de coisa encontra-se no que ele diz sobre o batismo: o sinal que temos da nova aliança não é específico para um gênero, como era o da antiga aliança, e acrescenta que em Cristo não há ‘homem nem mulher’, assim como não há judeu nem grego, escravo nem livre. As implicações disso são enormes. A mudança do sinal da aliança sinaliza a mudança da natureza da aliança no que diz respeito a homens e mulheres.”
'Why Arguments against Women in Ministry aren’t Biblical’, no blog do Dr. Witherington, The Bible and Culture (aqui).

N.T. Wright (nasc. 1948)

Especialista em Novo Testamento, Bispo de Durham (2003-2010)
“São as mulheres que chegam primeiro ao túmulo, elas que são as primeiras a verem o Jesus ressurreto e elas são as primeiras a quem foram confiadas as notícias de que ele ressuscitou dos mortos. Isso é de um significado incalculável. Maria Madalena e as outras foram apóstolas aos apóstolos. Não deveríamos nos surpreender quando Paulo chama uma mulher chamada Júnia de apóstola em Romanos 16:7. Se um apóstolo é uma testemunha da ressurreição, havia mulheres que mereciam o título muito antes de qualquer homem (...) E nem essa promoção seria algo totalmente novo com a ressurreição. Como em muitos outros aspectos, o que aconteceu então alude e aponta para muitas coisas anteriores do ministério público de Jesus. Penso particularmente na mulher que ungiu Jesus (não entrando aqui na questão de quem foi ela e se isso aconteceu mais de uma vez). Como alguns apontaram, foi uma ação sacerdotal e Jesus a aceitou como tal..”
‘Women’s Service in the Church: The Biblical Basis’, um paper de apresentação para o Simpósio Men, Women and the Church da St. John’s College em Durham, 4 de setembro de 2004. (Fonte)

Muitos outros...

Um grande número de outros acadêmicos evangélicos também acredita que a bíblia, se corretamente interpretada, não restringe mulheres com dons de qualquer função ou posição ministerial. Há muitos para sequer citar aqui, mas seguem alguns poucos: Kenneth Bailey, Gilbert Bilezikian, Michael Bird, Craig A. Evans. R.T. France, Kevin Giles, Joel B. Green, Stanley Grenz, Richard Hays, David Instone-Brewer, Walter Kaiser, Kenneth Kantzer, John R. Kohlenberger III, Richard N. Longenecker, Scot McKnight, Roger Nicole, Roger E. Olson, Philip Barton Payne, Stanley Porter, Howard Snyder, John Stackhouse, dentre outros (escolhi citar apenas acadêmicos homens para evitar a acusação de que as mulheres seriam complacentes com elas mesmas).

Para encerrar, uma citação de Dallas Willard (1935-2013):
“Não é a questão do direito feminino de ocupar papéis ministeriais ‘oficiais’ e nem a igualdade das mulheres em relação aos homens nesses papeis que estabelecem os termos do serviço feminino a Deus e ao próximo, mas é o dever delas de servir, dever que provém de suas habilidades humanas capacitadas pelo dom divino.”
How I Changed my Mind about Women in Leadership. Grand Rapids: Zondervan, 2010, P. 10. (destaques do autor).
Quem mais pode ser adicionado à lista de acadêmicos evangélicos conhecidos e respeitados que defendem o ministério feminino?

Texto escrito e citações compiladas por Marg Mowczko (fonte).
Tradução para o português por Rafael O. Faria.