quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Josh Hawley, Betsy DeVos e Abraham Kuyper: Um acerto de contas

Por Janel Kragt Bakker*

No inverno de 1998, me juntei a um grupo de graduandos em Humanidades da Universidade Dordt, uma instituição acadêmica de tradição cristã reformada no noroeste do estado de Iowa. Num mesmo carro, dirigimos sem parar por vinte horas direto até Princeton, New Jersey, para comemorar os 100 anos das “Palestras sobre o Calvinismo” (1) de Abraham Kuyper, feitas no Seminário Teológico Princeton em 1898. Kuyper foi pastor, teólogo, jornalista e político holandês que atuou como Primeiro Ministro da Holanda entre 1901 e 1905. Uma das coisas que mais me lembro da conferência foi uma petição que circulou entre os presentes para reconhecer e repudiar a retórica racista de Abraham Kuyper, empregada por muitos de seus discípulos na construção do Apartheid. Para a minha surpresa naquela ocasião, meus professores da Universidade Dordt se recusaram a assinar a declaração, argumentando que Kuyper deveria ser apreciado como homem de seu próprio tempo e que não era razoável aplicar sensibilidades contemporâneas a uma figura de outro contexto. E não foram só meus professores. Vários estudiosos proeminentes de Kuyper, muitos representando a ala evangélica da tradição reformada na América do Norte, atestaram que, embora algumas das noções de Kuyper sobre raça e gênero sejam lamentáveis, Kuyper deveria ser celebrado por seus “insights mais profundos”, tendo delineado uma filosofia política e um projeto de sociedade distintamente cristãos.

Na Universidade Dordt, nossos professores neokuyperianos nos educaram sobre o valor de uma “cosmovisão reformada”, na qual não há separação entre o sagrado e o secular, ou entre natureza e graça, na qual cada domínio da vida deve ser trazido sob o “senhorio” de Jesus. Uma frase famosa do discurso de Kuyper na inauguração da Universidade Vrije de Amsterdã em 1880, fundada por ele como expressão de sua filosofia, era frequentemente citada em Dordt: “Não há um único centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é Senhor sobre tudo e todos, não reivindique: ‘é meu!’”. Nossos professores alegaram que Kuyper forneceu um roteiro para cristãos viverem em um contexto pluralista. Os cristãos deveriam construir instituições e sistemas distintamente cristãos para promover o “reino de Deus”, ao mesmo tempo em que deveriam trabalhar em prol do bem comum.

Depois de me graduar, mudei-me para Washington D.C. pronto para transformar o mundo como uma embaixadora desse reino de Deus. Comecei a trabalhar para o Wilberforce Forum, o think tank da Prison Fellowship de Charles Colson. Ao perceber que Colson e sua turma viam “a cosmovisão cristã” como uma arma a ser usada na guerra cultural, ao mesmo tempo que comecei a conhecer em outros contextos perspectivas de engajamento cristão na sociedade orientadas para a libertação, deixei rapidamente o cargo.

Embora meus laços com a tradição reformada tenham diminuído, nomes como “Abraham Kuyper” ainda me chamam a atenção quando os vejo no The New York Times e no The Atlantic. Repórteres dessas e outras publicações notaram o quanto republicanos com cargos na era Trump como a ex-Secretária da Educação Betsy DeVos e o senador Josh Hawley abraçaram Kuyper a serviço de sua agenda política. Em discurso feito em 2017 para o American Renewal Project, Josh Hawley, na época Procurador-Geral do estado do Missouri, invocou a citação do “centímetro quadrado” para enfatizar a autoridade de Jesus sobre todos os aspectos da vida humana. “Fomos chamados a levar essa mensagem para cada esfera da vida que tocamos, incluindo a política”, disse Hawley. “O nosso dever é levar o Senhorio de Cristo, essa mensagem, para a esfera pública. E buscar a obediência das nações. De nossa nação!”. Numa interpretação bizarra de Pelágio (o bispo do século IV que negava a doutrina do pecado original e foi condenado como herege), Hawley disse que a sociedade estadunidense contemporânea sucumbiu à heresia pelagiana na crença geral de que “liberdade é o direito de escolher o seu próprio sentido” e que liberdade significa emancipar-se “não apenas de Deus, mas da sociedade, da família e da tradição”. A filosofia pelagiana, segundo Hawley, tornou a sociedade estadunidense mais hierárquica e elitista. E a solução dele é “reconstruir” uma cultura que proteja o estilo de vida da classe média estadunidense. “Devemos reconstruir uma democracia que não é dirigida pelas elites, mas pelo grande americano médio, uma democracia que permita ao trabalhador e trabalhadora colocarem em prática sua capacidade de autogoverno dada por Deus e ajudarem a gerir a vida de sua nação”.

Dadas as ações de Hawley como senador, desde seu intenso apoio às falsidades do presidente Trump, sua ânsia por privar milhões de eleitores negros de seu direito ao voto, ao desafiar a certificação do Colégio Eleitoral do resultado das eleições presidenciais de 2020, sua expressão de solidariedade aos insurrecionistas que invadiram o Capitólio, à sua recusa de retirar as objeções à certificação eleitoral após o ataque, parece claro que o “populismo” de Hawley se limita aos nacionalistas brancos de direita. Ao escrever para o The New York Times, Katherine Stewart chama a perspectiva de Hawley de “neomedieval”, expressando a ideia de “uma elite com uma mentalidade direitista de indivíduos religiosamente puros que teriam como objetivo resgatar a sociedade da obscuridade eterna e remodelar essa sociedade de acordo com sua visão do que é divina e moralmente aceitável”.

Em um discurso feito em 2020 para a faculdade Hillsdale, a secretária DeVos invocou a defesa de Kuyper ao financiamento de escolas religiosas e sua insistência de que a autoridade sobre a educação pertence às famílias e não ao Estado. DeVos declarou que a educação “poderá ser restaurada” se as autoridades “se tornarem holandesas” ao reconhecerem a família como o “fundamento para todas as outras instituições” e instituírem um sistema de voucher para uma possível “escolha da educação” (2). Enquanto as escolas paroquiais financiadas pelo Estado na Holanda possuem políticas compulsórias e estritas de não discriminação em contratações e admissões, DeVos usou seu tempo como Secretária da Educação se esforçando para reverter as proteções a funcionários e alunos LGBTQ, para enfraquecer o Título IX (3) e sucatear ao máximo as escolas públicas mais vulneráveis, que atendem principalmente populações negras e pardas. Embora DeVos tenha renunciado a sua posição no governo Trump na semana passada [7 de Janeiro] por causa do papel de Trump em incitar os grupos violentos no ataque ao Capitólio, passou quatro anos alimentando a aliança entre Trump e a Direita Religiosa, reproduzindo os jargões e códigos racistas de Trump e se esforçando em proteger os aparentes interesses dos cristãos brancos acima de outros grupos. Ao renunciar na semana passada, ela preferiu se declarar inapta a responsabilizar Trump como membro do seu governo.

Os admiradores mais moderados de Abraham Kuyper podem logo se opor a ideia dele ser jogado na mesma categoria do nacionalismo cristão branco e da guerra cultural de gente como Charles Colson, Betsy DeVos e Josh Hawley. Eles podem apontar para como a visão política de Kuyper era pluralista, com os cristãos protestantes constituindo um eleitorado político dentre outros ou podem insistir que pensadores como Kuyper não podem ser responsabilizados pelo modo como suas ideias são mal utilizadas por outras pessoas e grupos.

Embora eu concorde com esses argumentos, também afirmo que nós, que herdamos os legados do cristianismo branco, somos chamados a reconhecer e procurar reparar o dano que foi cometido em nome de nossas tradições. A noção de Kuyper do senhorio de Jesus, articulada na famosa citação do “centímetro quadrado”, tem problemas que vão além de ser usada para dar validação religiosa a uma ampla gama de intenções e realizações questionáveis ou de dar a entender que os cristãos são os árbitros do reino de Deus. A própria noção de que Jesus é proprietário de todas as coisas tem conotações imperialistas, refletindo o triunfalismo cristão protestante europeu e branco de Kuyper, da era vitoriana. Ao mesmo tempo em que Kuyper celebrava a “pluriformidade” cultural, ele afirmava que fora da Europa e da América do Norte, a maioria das culturas não tinha beneficiado a humanidade como um todo e considerava a vida das “raças” africanas a forma mais inferior de existência humana, com o ponto mais baixo da humanidade marcada pela pele escura. Na chamada “política ética”, que introduziu em 1901 nas Índias Orientais da Holanda, Kuyper descreveu a responsabilidade dos holandeses para com os povos nativos como “tutela”, uma vez que tinham o dever de empregar sua superioridade a serviço de Deus. O paternalismo de Kuyper se estendia também às mulheres: ele defendia uma ideia de franquia patriarcal na Holanda, na qual o poder de voto seria apenas dos pais das famílias, que representariam os votos de suas respectivas unidades familiares.

No início da carreira de Kuyper como pastor na Igreja Reformada Holandesa, ele liderou um movimento separatista com base em seu desejo de preservar a pureza doutrinária, exigindo que todos os membros da igreja e do clero subscrevessem as Confissões Reformadas. Sua igreja cismática era conhecida como Doleantie, ou “aqueles que sentem tristeza”. Sua identidade era baseada nos ressentimentos que tinham acerca da Igreja Estatal. Kuyper também era conhecido por sua afinidade com de kleine luyden, ou “gente pequena”, um grupo de fazendeiros cristãos reformados ortodoxos de classe média. Embora os advertisse contra a agitação e os encorajasse a se contentar com sua recompensa celestial, ele se esforçou para proteger seus interesses políticos.

Mesmo quando levado em conta em seus próprios termos, há muito do legado de Kuyper a ser repudiado. E embora seja injusto rotular Kuyper de nacionalista cristão branco, é fácil ver como suas ideias podem ser usadas a serviço do nacionalismo cristão branco, com seu ethos de ressentimento, sua “neutralidade” como um disfarce para seu racismo, seu paternalismo, seu patriarcado e seu “populismo” favorecendo os interesses da classe trabalhadora branca.

No condado de Sioux, o canto noroeste do Estado de Iowa, onde está localizada a Universidade Dordt, os cristãos reformados de ascendência holandesa são a maioria. Quando era estudante universitária na década de 1990, eu experimentei os valores kuyperianos incrustados na comunidade, com sua rede de escolas e organizações sociais cristãs e sua centralidade nas instituições da igreja local e da família nuclear, tidas como amplamente positivas ou no máximo provincianas. Mas do ponto de vista de 2020, à luz do apoio quase total do condado de Sioux a Donald Trump, bem como minha própria exposição aos relatos de residentes não brancos e não reformados do condado de Sioux sobre suas experiências de trauma e marginalização, eu vejo o quadro de forma muito diferente. Para muitos nesta comunidade, a “cosmovisão reformada” parece se encaixar perfeitamente nas políticas identitárias brancas.

Na minha perspectiva atual, equidade e pluralismo político não são possíveis quando o poder não é compartilhado por minorias e quando os sistemas sociais de opressão não são desmontados. O basileia tou Theo a que Jesus se referia com tanta frequência nas narrativas do evangelho é melhor representada pela visão de Martin Luther King, Jr. e de outros libertacionistas da “comunidade amada” do que pela visão de Kuyper do “reino de Deus”. Jesus nunca descreveu o basileia tou Theo como um império que seus seguidores deveriam construir, mas sim como o reino da justiça, do amor e da paz de Deus, onde os primeiros são os últimos e os últimos são os primeiros. Um reino em que seus seguidores foram convidados a receber como uma dádiva e a acolher com a postura de crianças.

Um dos professores neokuyperianos que levou o nosso grupo da Universidade Dordt para a conferência em comemoração às palestras de Kuyper em Princeton era conhecido por sua convicção de que “ideias têm pernas”. Aqueles de nós com raízes em tradições religiosas específicas têm a responsabilidade de reconhecer e procurar reparar o mal causado por nossos heróis, assim como o mal cometido em seus nomes. Um espírito de humildade é essencial nesse acerto de contas, pois reconhecemos que também nossas ações, que nos parecem bem-intencionadas ou mesmo virtuosas, podem ser julgadas com severidade por gente de fora das nossas tradições ou pelas gerações futuras. Mas a inevitabilidade das nossas próprias deficiências não é uma desculpa para nos recusarmos a dizer a verdade ou deixarmos de responsabilizar aqueles que abusaram do poder, incluindo nós mesmos. Felizmente, nossas tradições também contêm uma riqueza de recursos para o trabalho de lamento, arrependimento, solidariedade e reparação.

Notas

(1) N. do T.: As Lectures on Calvinism foram traduzidas pela Editora Cultura Cristã, em 2002, num volume chamado Calvinismo.

(2) N. do T.: O conceito de sistemas de educação por voucher se relaciona à ideia kuyperiana de pilarização da sociedade e ao financiamento público de escolas confessionais e particulares que podem ser escolhidas como opções por famílias de diferentes confessionalidades e orientações.

(3) N. do T.: O Título IX das Emendas de Educação de 1972, é uma lei de Direitos Civis do Departamento de Educação dos EUA que protege as pessoas da discriminação com base no sexo em programas ou atividades educacionais que recebem assistência financeira federal.

Janel é Professora Associada de Missão, Evangelismo e Cultura no Seminário Teológico de Memphis e autora de ‘Sister Churches: American Congregations and Their Partners Abroad’. Seu trabalho atual vai no sentido de responder à guerra cultural nos EUA com uma missiologia de reparação, baseada na imagem de Jesus da basileia tou Theou (reino da justiça, amor e paz de Deus).

Tradução: Rafael Faria | Revisão: Flávio Conrado

Fonte: https://www.patheos.com/blogs/anxiousbench/2021/01/josh-hawley-betsy-devos-and-abraham-kuyper-a-reckoning/

Tradução publicada no site Novos Diálogos: http://novosdialogos.com/artigos/josh-hawley-betsy-devos-e-abraham-kuyper-um-acerto-de-contas/

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Contra a Heterossexualidade

Alasdair MacIntyre sugeriu uma vez que "fatos, assim como telescópios e perucas para cavalheiros, são invenções do século XVII". Algo similar pode ser dito sobre orientação sexual: heterossexuais, assim como máquinas de escrever e mictórios (também, obviamente, para cavalheiros), são invenções da década de 1860. Contrário aos nossos preconceitos culturais e às mentiras do que é chamado de "essencialismo de orientação", "hétero" e "gay" não são absolutos atemporais. Orientação sexual é um jogo conceitual com uma história, e uma história sombria. E é uma história que começou muito mais recentemente do que a maior parte das pessoas sabe, e que provavelmente vai acabar muito antes que a maior parte das pessoas pensa.

Ao longo de vários séculos, o Ocidente tem abandonado progressivamente a arquitetura conjugal do cristianismo para a sexualidade humana. Então, a cerca de 150 anos, começou a substituir a tradição teleológica que existia há muito tempo por uma criação completamente nova: a taxonomia absolutista, mas absurda, da orientação sexual. A heterossexualidade foi criada para servir como um ideal regulatório dessa estrutura fantasiosa, preservando as proibições sociais contra a sodomia e outras devassidões sexuais sem recorrer à natureza procriadora da sexualidade humana.

Nessa narrativa, os atos homossexuais não eram errados porque desprezam o propósito racional-animal que tem o sexo (a família), mas porque o desejo por tais atos supostamente surgem de uma desordem psicológica repugnante. Como o teórico queer Hanne Blank relata, "esse novo conceito [da heterossexualidade] apareceu de uma mistura bizarra de línguas mortas com sons impressionantes, provendo à antigas ortodoxias novas e vibrantes concessões sobre a vida ao sugerir em tons autoritativos que a ciência as pronunciou naturais, inevitáveis e inatas".

Orientação sexual não proveu uma base fidedigna para a virtude tal qual esperavam seus inventores, principalmente mais recentemente. Não obstante, muitos cristãos conservadores hoje sentem que devemos continuar a consagrar a divisão gay-hétero e o ideal heterossexual em nossa catequese popular, porque ela ainda parece a eles como a melhor forma de fazer com que as nossas crenças morais pareçam razoáveis a desejáveis.

Esses meus compatriotas cristãos estão errados ao se apegar tão fortemente à orientação sexual, confundindo essa apologia inédita e infrutífera para a castidade com os fundamentos eternos desta. Nós não precisamos de "heteronormatividade" para nos defendermos contra a devassidão. Muito pelo contrário, a heteronormatividade é um obstáculo.

Foucault, um aliado inesperado, detalha a genealogia da orientação sexual em sua obra 'A História da Sexualidade". Onde "sodomia" identificou por muito tempo um tipo de ações, pela primeira vez, de repente, na segunda metade do século XIX, o termo "homossexual" apareceu junto com o primeiro. Esse neologismo europeu foi usado de uma maneira que soaria para as gerações anteriores como um puro erro de categoria, designando não ações, mas pessoas, assim também como sua contraparte "heterossexual".

Psiquiatras e legisladores da segunda metade do século XIX, como relata Foucault, rejeitaram o entendimento clássico de que "perpetrador" de atos de sodomia era "nada mais do que uma nomenclatura jurídica para tais". Com o surgimento das sociedades seculares, e estas querendo deslegitimar publicamente as crenças religiosas clássicas, a pseudociência veio a substituir a religião como o fundamento moral para as normas venéreas. Para alcançar a estabilidade social sexual secularista, os médicos da época forjaram o que Foucault chama de uma "ordem natural de desordem".

"O homossexual do século XIX tornou-se um personagem", "um modelo de vida", uma "morfologia", escreve Foucault. Essa identidade psiquiátrica pervertida, elevada ao status de "uma forma de vida" mutante para se poder salvaguardar a sociedade educada de suas depravações, engoliu toda as características atribuídas: "Nada daquilo que ele [o homossexual] é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas".

Os imprudentes aristocratas que encorajaram essas inovações médicas mudaram a medida da moralidade pública, ao substituir a natureza humana com as nuances da religião pela opção secular mais segura das paixões individuais. Assim, eles foram obrigados a trocar a vigorosa tradição do direito natural pelo recém construído modelo de "normalidade psíquica", com a "heterossexualidade" servindo como o novo normal para a sexualidade humana. E, o que era previsível, tal padrão vago de normalidade oferecia uma sustentação muito mais frágil para a ética sexual do que a tradição clássica do direito natural.

Porém, o fato desse novo modelo ter sido enfatizado serviu para consolidar essas categorias de heterossexualidade e homossexualidade no imaginário popular. "A homossexualidade apareceu como uma das formas da sexualidade", relata Foucault, "quando foi transposta, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era uma aberração temporária, agora o homossexual é uma espécie". Orientação sexual, assim, não é nada a mais que um frágil constructo social, e um construído de forma terrivelmente recente.

Enquanto a nossa cultura popular ainda não chegou aí, os teóricos queer cada vez mais dão as cartas no nível das elites e já concordam com Foucault nesse assunto. Esses pensadores ecoam o pensamento herético (do ponto de vista LGBT) de Gore Vidal: "Na realidade, não existe algo como uma pessoa homossexual, assim como não existe algo como uma pessoa heterossexual". De fato, a divisão natural fixa entre as duas identidades tem se mostrado útil para os ativistas dos "direitos gays" em campo e não menos importante para o ethos de direitos civis que tais dinâmicas de poder invocam. Mas a maior parte dos teóricos queer, assim como a maior parte dos acadêmicos das diferentes humanidades e disciplinas sociais e comportamentais hoje, vão admitir que tais distinções são apenas constructos fluidos. Muitos desses campos tentam expor as credenciais falsas da orientação sexual e, parafraseando Nietzsche, para explica-las de forma genealógica de uma vez por todas.

Jonathan Ned Katz, um historiador da sexualidade da esquerda radical que ensinou em Yale e na New York University captura muito bem tal consenso da teoria queer em sua obra 'A Invenção da Heterossexualidade', em que ele explica: "Eu falo da invenção histórica da heterossexualidade para contestar firmemente a nossa comum suposição de uma heterossexualidade eterna, para sugerir uma condição histórica, instável e relativa a uma ideia e uma sexualidade que geralmente supomos terem sido gravadas na pedra há muito". E ele continua: "Ao contrário das biocrenças de hoje, o binário heterossexual-homossexual não reside na natureza, mas é socialmente construído, portanto desconstruível".

Meu prognóstico é que veremos esse binário completamente desconstruído ainda na geração atual. Mas a meu ver, nós que propomos a castidade cristã deveríamos ver essa destruição iminente da ruptura gay-hétero não como uma tragédia, mas como uma oportunidade. Mais que isso, eu quero sugerir que deveríamos nos empenhar pela dissolução da orientação sexual dentro das nossa próprias esferas subculturais sempre que possível.

Obviamente, tendo em vista a nossa imersão numa cultura para a qual essas categorias parecem tão naturais quanto a própria língua, desenraizá-los do nosso próprio vocabulário e cosmovisão será uma tarefa nada fácil. Por que se importar então? Contando que não sucumbamos aos atos pecaminosos, do que importa se as pessoas (inclusive os cristãos) continuam a se identificar como homossexuais e heterossexuais?

Primeiramente, dentro do essencialismo da orientação sexual, a distinção entre heterossexualidade e homossexualidade é uma construção que é desonesta sobre sua própria condição de construção. Essas classificações são mascaradas como categorias naturais, aplicáveis a todas as pessoas de todos os tempos e lugares de acordo com os objetos típicos de seus desejos sexuais (porém, talvez, com algumas opções a mais para os categorizadores politicamente corretos). Ao alegar não ser simplesmente uma invenção acidental do sec. XIX, mas uma verdade atemporal sobre a natureza sexual humana, essa acepção sobrevalorizada ilude àqueles que adotam seus rótulos, que acreditam que tais distinções são mais importantes do que realmente são.

Uma segunda razão para se duvidar desse esquema como algo que nós cristãos deveríamos usar prontamente é que sua introdução em nosso discurso sexual claramente não aumenta as virtudes, sejam intelectuais ou morais, daqueles que empregam tais conceitos. Pelo contrário, ele tem criado tanto uma obscuridade intelectual quanto um desequilíbrio moral.

Quanto ao primeiro, o essencialismo de orientação tornou a filosofia ética quase impossível: deslocou os princípios conjugais-procriativos de castidade sem oferecer nenhuma alternativa que não seja inteiramente arbitrária. A antiga perspectiva teleológica mensurava a moralidade nos termos da natureza racional-animal humana. No campo sexual, isso significava avaliar atos sexuais em referência ao bem comum do matrimônio, que integrava a união conjugal e a geração e criação de filhos. O novo sistema heteronormativo, por outro lado, não tem como explicar a depravação da sodomia homossexual a não ser por um argumento engasgado, condicionado e sem fundamentos que, não sendo justificado, se enfraqueceu consideravelmente ao longo do tempo.

Quanto ao segundo resultado, o desequilíbrio moral, a hegemonia da orientação sexual tem, de forma contraproducente, redirecionado nossa atenção cotidiana dos propósitos objetivos para as paixões subjetivas. Os jovens, por exemplo, hoje encontram-se regularmente em angústia sobre suas identidades sexuais e em autocomiseração por tentativas de discernir seus lugares nesse supostamente natural diagrama de orientações de Venn. Essas obsessões geram muito mais calor do que luz e fazem adolescentes já sexualmente excitados se concentrarem nas dimensões extrínsecas de suas próprias constituições sexuais. Essa auto-busca se torna ainda mais desnecessariamente dolorosa para aqueles que veem em si uma "orientação homossexual", ao adotarem uma identidade que se distingue essencialmente por um conjunto de desejos sexuais que não podem ser moralmente satisfeitos.

Há uma terceira razão pela qual essa categorização deveria ser descartada, esta, teológica: É oposta à liberdade para a qual Cristo nos libertou. Meu futuro superior na vida religiosa, Pe. Hugh Barbour dos Padres Norbertinos, argumentou sobre essa ideia num ensaio na Chronicles Magazine, intitulado 'Do Homosexuals Exist? Or, Where Do We Go from Here?' (Existem homossexuais? Ou, Para Onde Vamos?). Como ele argumenta, "a teologia moral tradicional avaliava atos, e não generalizava de forma demasiadamente insatisfatória acerca das tendências que levavam a esses atos. Isso era deixado para a casuística das ocasiões de pecado e para a direção espiritual. Se o pecado fosse roubo, então o padrão de avaliação era cleptomania? Se fosse bebedice, alcoolismo? Se fosse preguiça, depressão clínica?" Mesmo os cristãos ortodoxos, ele escreve,

"cederam ao costume de tratar inclinações sexuais como identidades. Pastoralmente, deveríamos pregar a liberdade para a qual Cristo nos libertou. Ao tratarmos do pecado de sodomia como uma prova prima facie de uma identidade, não estamos, sob uma aparência externa de compaixão e sensibilidade, ajudando a vincular o pecador à sua inclinação de pecado e, assim, jogando nele um fardo demasiado grande de se carregar sozinho, já que não podemos levar por ele?"

Autodescrever-se como "homossexual" tende a multiplicar ocasiões de pecado para aqueles que adotam o rótulo ao provocar, nas palavras do Padre, uma desnecessária "dramatização da tentação". Onde a infusão de virtudes teologais libertam o cristão, identificá-lo como homossexual apenas escraviza mais o pecador. Intensifica a concupiscência, uma triste distorção do amor, ao amplificar o sentido aparente dos desejos lascivos. Fomenta uma autopiedade desesperante, prejudicando a esperança, que deveria motivar virtudes morais. Além de encorajar um forte senso de direito, o que geralmente enfraquece a obediência da fé ao exigir a destruição das doutrinas que parecem reprimir "quem eu realmente sou".

Há um punhado de contra-exemplos louváveis para esse padrão desencorajante, pessoas que se identificam como "cristãos gays" que são tanto virtuosos, como fiéis aos ensinamentos da Igreja. Mas dada a tensão inerente entre a narrativa cristã e lógica da orientação sexual, não seria uma surpresa se esses louváveis isolados que tentam combinar essas duas tradições inconsonantes são a exceção e não a regra.

Batizar a identidade homossexual é repleto de perigos evitáveis. E ainda, no que diz respeito ao maior mal causado pelo binário da orientação sexual, a homossexualidade não é a culpada. A heterossexualidade a é (não que os dois males estejam separados, obviamente). Os aspectos mais perniciosos do sistema identitário da orientação é que ele tende a isentar os heterossexuais de qualquer avaliação moral. Se a homossexualidade nos vincula ao pecado, a heterossexualidade nos cega para o pecado.

Não há questão de que alguns "heterossexuais" moralmente autoconscientes existam. Todavia, como regra geral, identificar-se como uma pessoa heterossexual hoje em dia corresponde a declarar-se um membro do "grupo normal", contra o qual todos os desejos sexuais e atrações desviantes devem ser medidas. Essa heteroidentificação induz, portanto, a uma autoconfiança pateticamente acrítica e (não preciso nem dizer) sem merecimento, além de uma medida imprecisa para avaliar a tentação.

Naturalmente, nós temos uma norma que nos é modelo para a avaliação dos desvios sexuais. Porém esse modelo não é a heterossexualidade, é o próprio Cristo Jesus, o Deus-homem que tanto aperfeiçoou a natureza humana, quanto exemplificou sua perfeição, "aquele que em tudo foi tentado, porém não pecou". Que os autodeclarados heterossexuais substituam o Senhor em tal posição é o cúmulo da sandice.

É verdade que a homossexualidade pode ser distinguida por um inadequado desespero, ao se aceitar inclinações pecaminosas como constituintes de identidade e portanto, implicitamente, rejeitar a liberdade comprada para nós pelo sangue de Cristo. Mas a heterossexualidade, em suas pretensões de agir como norma para avaliar os nossos hábitos sexuais, é marcada por algo ainda pior: a Soberba, que São Tomás de Aquino classifica como a rainha de todos os vícios.

Existem razões práticas para ter cuidado com a heterossexualidade também. Pelo fato de que o nosso mundo pós-freudiano associa qualquer atração física e afeição interpessoal com o desejo erótico-genital, a amizade íntima entre pessoas do mesmo sexo e um casto apreço pela beleza do próprio sexo têm se tornado quase impossíveis de se alcançar (inclusive, Freud foi um dos mais influentes arquitetos desse vicioso mito essencialista da orientação).

Para "heterossexuais" em particular, aproximar-se de um amigo do mesmo sexo acaba parecendo perverso e ser tocado por sua beleza parece esquisito. Para evitar serem confundidas como gays, essas muitas pessoas autoproclamadas heterossexuais, especialmente os homens, se contentam com associações superficiais com seus camaradas e reservam o tipo de intimidade valiosa que originalmente caracterizava um relacionamento casto entre pessoas do mesmo sexo apenas aos seus parceiros românticos. Sua orientação sexual ostensivamente normal os rouba um aspecto essencial do florescimento humano: a amizade profunda.

Os mais antigos usos do termo "heterossexualidade" conferem maiores motivos para duvidar se devíamos celebrar essa ideia de forma tão entusiástica. É fato que até o final do século XIX, o rótulo algumas vezes era usado meramente para denotar o "sexo normal". Obviamente ainda tendemos a usar o termo dessa forma hoje e, como estou argumentando, isso é tragicamente confuso.

Mas outro proeminente significado do termo mais ou menos da época de sua invenção, incluindo o seu uso mais antigo registrado em inglês, em 1892, continua a orientar a nossa concepção distorcida de sexualidade humana, ainda que essa definição secundária tenha saído de moda. Nessa definição alternativa, a palavra não designa o "sexo normal", mas apenas uma espécie diferente de desvio sexual, como a contraparte homossexual em seu desdém pela reprodução, mas diferente no sentido do objeto típico de suas inclinações eróticas.

A infeliz história do termo "heterossexual" que temos escolhido esquecer é que esse termo chegou ao vernáculo ocidental como um rótulo para uma desordem de perversão sexual que se deleitava em atos sexuais essencialmente estéreis. Geralmente esses desejos eram para pessoas de sexo opostos, mas até mesmo essa linha era turva, porque, uma vez que o propósito gerativo do sexo foi rompido, de forma geral importava muito pouco quem era o parceiro de masturbação mútua do "heterossexual".

Nossos antepassados cristãos ficariam chocados com a nossa complacência com a questão da orientação sexual. A única razão pela qual todo esse programa não nos alarma como faria a eles é que fomos sistematicamente indoutrinados nele desde crianças, especialmente nossos jovens adultos. Porém, façamos uma analogia com algo ainda não tão familiar para nós. Consideremos como reagiríamos se um outro tipo de categoria adentrasse o nosso vocabulário cultural.

A revista online Slate recentemente publicou um artigo intitulado 'Is Polyamory a Choice?' [Poliamor é uma Escolha?], o qual argumentava que, além de inclinações em direção a homens ou mulheres, pode também haver constituições de orientação sexual no que diz respeito a uma fidelidade (e infidelidade) inata e imutável.

Imagine se as pessoas que se antevêem ser mais satisfeitas romanticamente por uma exclusividade sexual compromissada comecem a se identificar como "fiéis", enquanto aqueles que geralmente ficam mais empolgados com a perspectiva de uma promiscuidade sexual irrestrita comecem a se identificar como "infiéis". Não acharíamos que isso é problemático, especialmente quando mulheres e homens cristãos começarem a adotar a segunda definição para si, até mesmo exibindo o fato de que são "infiéis" como motivo para não se casar, já que eles não seriam suficientemente satisfeitos pela vida sexual para a qual estariam se comprometendo através dos votos matrimoniais?

"Infidelidade" obviamente está no papel da homossexualidade nessa analogia. Mas, mesmo que consideremos o número de parceiros sexuais ou a orientação de alguém, como não nos chocar quando os nossos irmãos cristãos adotam uma identidade para si que se distingue essencialmente do seu contraste por nada além de um tipo particular de tentação ao pecado? Isso é o oposto à liberdade cristã. É claro que todos nós estamos caídos e somos tentados e temos necessidade da ajuda divina. Mas enquanto continuamos a lutar contra essas tentações pecaminosas, a libertação das correntes do pecado, que nos reivindica como sua posse, nos foi dada em Cristo Jesus.

Nós não pertencemos mais às nossas transgressões. Então por que criar identidades para nós mesmos usando o pecado como critério? Eu não me importo com o quanto a promiscuidade possa ser atraente para você. Você enfaticamente não é "um infiel". É certo que poderíamos construir socialmente categorias que possam tornar essa forma de falar parecer óbvia e inata. Mas se o cristão fizer isso ou participar voluntariamente de uma estrutura assim, se esta for construída ao redor dele, ele estaria severamente enganado.

Eu não sou o meu pecado. Eu não sou a minha tentação ao pecado. Pelo sangue de Jesus Cristo eu fui libertado dessa amarra. Eu posso ter todos os tipos de identidade, com certeza, especialmente nesta nossa época desequilibradamente super-psicanalítica. Mas, no mínimo, nenhuma dessas identidades deveriam ser essencialmente definidas pela minha atração ao que me separa de Deus.

O outro lado dessa hipótese inspirada pelo Slate traz à luz os males peculiares da heterossexualidade. Além da nossa justificada desaprovação dos cristãos que desesperadamente se identificassem como "infiéis", não haveria algo ainda mais absurdo e depravado na vaidosa autoidentificação de cristãos como "fiéis"? Coloquemos da seguinte forma: O fato de que os meus desejos eróticos tendem a tomar somente uma única pessoa como objeto, ao invés de um vasto coletivo, necessariamente aponta para alguma qualidade moral inerente da minha parte? Aliás, será que sequer sinaliza que os meus desejos são virtuosos, ou será que simplesmente indica que por um acaso eu não sou fortemente tentado a um entre vários outros potenciais abusos lascivos? Assim como as pessoas chamadas "fiéis", os indivíduos "heterossexuais" não são arquétipos perfeitos de castidade apenas porque evitam "a armadilha incasta da última semana".

No entanto, apesar da falta de lógica disso tudo, as "pessoas hétero" tendem a receber mais vantagens sociais de sua definição sexual, o que torna o desmantelamento do esquema da orientação sexual uma ameaça maior a eles do que às suas contrapartes "gays" ou "lésbicas". Como Jenell Williams Paris da Messiah College escreve em seu livro 'The End of Sexual Identity' [O Fim da Identidade Sexual], "Ter a nossa humanidade mais do que categorias contemporâneas de identidade sexual como o fundamento para a ética sexual (…) vem com um custo para os heterossexuais", porque "coloca-os no jogo como jogadores ao invés de árbitros". No entanto, e por isso mesmo, são os autoproclamados heterossexuais que podem se tornar mais efetivos em assumir a vanguarda em investir contra o sistema de orientação sexual, sacrificando seu manto de segurança anticristão que é a "heterossexualidade" em nome do caritas in veritate [amor na verdade].

Ainda, se nós cristãos escolhermos nos juntar a esse entendimento ou não, com o tempo, o conceito de orientação sexual inevitavelmente vai sair de moda e perder a relevância. A nossa escolha é simplesmente se queremos ou não o mesmo para nós. Uma razão óbvia para seu ocaso inevitável é que os sentimentos são consideravelmente mais inconstantes do que os primeiros proponentes e agitadores psicossociais acreditavam. Suas categorias rígidas e definitivas se mostraram insuficientes diante das evidências empíricas.

Um segundo fator para o declínio da orientação sexual é que essas categorias hétero e homo não têm como sustentar logicamente as normas sexuais para as quais foram criadas. Os essencialistas de orientação originais não conseguiram nem oferecer uma razão coerente para defender a heterossexualidade em detrimento da homossexualidade, o que era o alicerce de sua posição. Sem mais nada, além de sensibilidades herdadas e uma ordem arbitrária, sua medida heteronormativa falhou onde sua antecessora procriadora tinha sucedido por séculos, em oferecer razões íntegras para as normas.

Falhas filosóficas condenaram a iniciativa da orientação sexual em toda a sua existência. Como o inadequado padrão heteronormativo deixa inteiramente intocadas várias instâncias lascivas entre pessoas de sexo oposto, pecados anteriormente considerados mortais, como a auto-satisfação egoísta, a pornografia, a fornicação, a contracepção e a sodomia masculina-feminina, foram progressivamente tolerados. No entanto, tendo em vista todas essas injunções citadas, compreensivelmente, começou a parecer inconsistente e portanto preconceituoso continuar insistindo em proscrições de práticas desviantes entre pessoas do mesmo sexo. A estrutura de orientação essencialista, que deveria ser uma defesa infalível contra a libertinagem homossexual, tornou-se assim a arma mais forte em seu arsenal.

O que nos leva à razão final e talvez mais surpreendente pela qual o conceito de orientação sexual vai cair: este quase esgotou sua utilidade política, algo que sempre teve uma data de validade. O plano dos conservadores morais do século XIX para a orientação saiu pela culatra, obviamente, quando o que se supunha serem condições psiquiátricas normativamente desiguais se tornaram identidades psicológicas moralmente indistinguíveis.

Entretanto, nem o liberalismo tem muito mais a ganhar com isso, já quem entre os casos Romer v. Evans, Lawrence v. Texas, United States v. Windsor e o ENDA [Em tradução livre: Ato Não-Discriminatório Empregatício], pouquíssimos casos de "direitos gays" ainda restam a ser resolvidos. O conceito de orientação ainda pode ter alguns poucos anos de capital político, mas muitos progressistas já ostentam que poderiam abandonar o mito das categorias naturais sem maiores problemas, tendo iniciado recentemente uma irresistível tendência liberadora que continuará a avançar com ou sem as categorias. Mais cedo ou mais tarde, esses pronunciamentos dos teóricos queer vão deixar suas torres de marfim e se tornarão também uma ortodoxia cultural.

Embora eu espere que muitos pensadores cristãos conservadores achem Foucault um estranho aliado, quero sugerir que o nossa cobeligerância com a esquerda radical neste assunto deveria ser entusiástico, embora também circunscrita cuidadosamente. Em essência, deveríamos ficar contentes ao juntar nossas vozes às dos teóricos queer pós-estruturalistas em suas vigorosas críticas aos ingênuos essencialistas da orientação sexual, que erroneamente pensam que "hétero" e "gay" são classificações naturais, neutras e atemporais.

Seu historicismo desiludido faz com que esses genealogistas sexuais se posicionem de forma singular de modo a enxergar os enganos e ilusões da orientação sexual. Enquanto nós cristãos não precisamos desse discurso da teoria queer de alguma forma essencial, ele pode, no entanto, de uma forma acidental, provar nos ser um grande aliado no presente. Ironicamente, esses esquerdistas radicais podem ser os únicos que podem curar a cegueira que, por falta de prudência, ultimamente nos infligimos ao adotar de forma acrítica a linguagem da hétero e da homossexualidade.

No entanto, embora possamos e devamos recomendar o diagnóstico dos teóricos queer sobre a absurdidade que infesta as nossas categorias sexuais hoje, não podemos, contudo, aderir ao seu plano de tratamento. Jonathan Ned Katz, Hanne Blank e outros teóricos queer contemporâneos de forma geral pretendem retratar de forma genealógica o rígido esquema da orientação sexual precisamente porque acreditam que isso lhes dará a liberdade e o poder de fazer, desfazer e refazer sua sexualidade como bem entenderem.

Eles querem desmantelar esses constructos sociais falidos não para que algo possa ser construído no lugar (ou, talvez, redescoberto meio ao entulho), mas porque eles esperam alcançar um nível ainda maior de libertinagem do que o que temos hoje, mesmo que o preço para isto seja ter que endossar uma espécie chula de niilismo sexual. Ressoando Dostoiévski, esses radicais gostariam de acreditar que se a orientação sexual não existe, então todas as coisas são possíveis.

O cristão não pode segui-los ladeira abaixo nesse caminho miserífico, obviamente. Mas ele tampouco pode, eu acredito, permanecer contentado com a enganosa e condenada taxonomia de orientação de orientação sexual que temos hoje. Lembrem-se do que estou dizendo: os teóricos queer darão um jeito de desmantelar a coisa em pouco tempo. Até a nossa cultura popular está começando a mostrar sinais de estresse aqui. A lista (de roupas pra lavar) cada vez maior de orientações demonstram a insuficiência dessas categorias nítidas e discretas. E o conceito agora familiar de "hasbian" sugere que essas identidades são bem menos estáticas do que antes fomos levados a acreditar (lembre-se, por exemplo, da nossa ex-homossexual, recente primeira dama de Nova Iorque).

A questão é quando essa estrutura de orientação sexual ruir, o que virá para tomar seu lugar: a ética niilista do tudo-liberado dos teóricos queer; ou a visão cristã clássica da qual tudo isso se afastou, a visão que toma o princípio conjugal-procriativo como sua finalidade e princípio organizador, avaliando as paixões em detrimento da natureza e não vice-versa?

Defender a castidade cristã hoje, penso eu, é dissociar a Igreja do falso absolutismo da identidade baseada na tendência erótica, e redescobrir o nosso próprio fundamento antropológico para princípios morais tradicionais. Se não quisermos sermos perder a relevância junto com os essencialistas de orientação modernos, precisamos lembrar ao mundo que a nossa ética sexual nunca se adaptou à estrutura moderna mesmo, e que, portanto, abandonar a estrutura não precisa levar à libertinagem niilista pós-moderna. Existe um terreno mais firme ao se aderir à tradição cristã clássica. Na verdade, parece-me o único lugar que ainda dá pra ficar.

A Bíblia nunca chamou a homossexualidade de abominação. E nem poderia, pois como vimos, o Levítico precede qualquer concepção de orientação sexual por pelo menos dois milênios. O que a Escritura condena é a sodomia, independente de quem a comete ou por quê. E ainda, como tenho dito, em nossa própria época, a homossexualidade merece o rótulo de abominável, mas a heterossexualidade também.

No que concerne à moralidade sexual, já estamos no ponto onde não é mais suficiente criticarmos as respostas medíocres da modernidade. Como o nosso Senhor nas narrativas dos evangelhos, também devemos corrigir as perguntas medíocres ou insatisfatórias que a modernidade faz. Ao invés de nos debater na problemática de como viver como "um cristão homossexual", ou também, a ainda mais problemática questão de como viver como um "cristão heterossexual", deveríamos estar ensinando os nossos irmãos cristãos, especialmente os que estão em seus anos mais formativos da adolescência, que não vale a pena usar essas categorias.

Elas são invenções recentes que são totalmente alheias à nossa fé, inadequadas para justificar normas sexuais e contraditórias a uma verdadeira antropologia filosófica. Chegou a hora de erradicarmos a orientação sexual da nossa cosmovisão da forma mais sistemática que pudermos, com toda a devida prudência aos casos particulares, é claro.

Se o Papa Francisco está certo quando diz que contextualizar o nosso discurso moral é um pré-requisito necessário para nos mostrarmos convincentes (e até mesmo inteligíveis) aos nossos interlocutores, então abandonar a heteronormatividade e ressuscitar a nossa própria tradição de castidade teleológico-familiar é a única forma de explicar adequadamente a ética sexual cristã.

Michael W. Hannon, escreve para a revista First Things e está se preparando para entrar na vida religiosa com os Norbertinos da St. Michael's Abbey em Orange County, nos Estados Unidos. Março de 2014. Tradução de Rafael de Oliveira Faria.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Gresham Machen e a teologia colorida pelo privilégio branco

J. Gresham Machen
Herói para muitos dentro dos círculos reformados e conservadores, John Gresham Machen frequentemente é pintado como um teólogo exemplar com uma firme devoção à ortodoxia bíblica. Entretanto, um documento histórico importante mostra como esse herói da fé cristã permitiu que a supremacia branca redefinisse, modelasse e até desfizesse princípios do evangelho.

A História Dominante


Poucos nomes são mais significantes na história do cristianismo estadunidense conservador do que J. Gresham Machen. Para os que não conhecem o nome, Machen foi um teólogo presbiteriano estadunidense do início do século XX que exerceu grande influência durante a controvérsia fundamentalista-modernista que dividiu as denominações nos EUA. Em particular, Machen frequentemente é considerado um dos grandes advogados do conservadorismo teológico, alguém que defendeu a verdade contra a crescente onda de liberalismo teológico em sua denominação presbiteriana e seminário reformado. Em seu livro ‘Cristianismo e Liberalismo’, ele afirma claramente que havia um abismo fundamental e irreparável entre a fé cristã histórica e o que ele identificava como movimento teológico liberal, que prontamente negava os fundamentos da fé cristã, como o nascimento virginal, os milagres e a ressurreição.
Machen Hall no Seminário Teológico Westminster
À medida que sua própria denominação e seminário mudavam em direção ao liberalismo da época, Machen seguiu seu caminho para defender a ortodoxia ao liderar uma base conservadora para formar uma nova denominação, a Orthodox Presbyterian Church (OPC) [Igreja Presbiteriana Ortodoxa], e um novo seminário, o Seminário Teológico Westminster (WTS). Essa base era distinta e robustamente reformada e conservadora em sua teologia. A influência de Machen é observada tanto nos contextos reformados como evangélicos. Herói para muitos desses círculos, Machen frequentemente é pintado como um teólogo exemplar com uma firme devoção à ortodoxia bíblica.

Essa é a história que me foi ensinada, como membro de longa data da OPC e estudante numa instituição que leva o nome da WTS. Entretanto, ao pesquisar pessoalmente e desejar saber a verdade sobre o passado da melhor forma possível, eu descobri que essa história tem um lado completamente diferente e raramente reconhecido.

A História Oculta


Em carta à sua mãe datada de 5 de outubro de 1913, Machen escreve sobre um ocorrido tumultuoso no Seminário Teológico de Princeton: um “homem de cor” que seria integrado ao dormitório do seminário.
“…sempre que um dormitório estiver vazio, há a chance dele [o homem de cor] se mudar para cá. Se eu tiver que fazer alguma objeção, agora é a hora. É claro que se ele vier, eu posso simplesmente o tirar daqui, o que seria um grande sacrifício para mim.”
Em sua carta, Machen explica que ele “enfaticamente se opõe” à integração das pessoas de cor nos dormitórios porque a “intimidade da relação dos homens nos mesmos dormitórios, os quais possuem apenas um banheiro, excede, em alguns sentidos pelo menos, à intimidade do companheirismo à mesa”.

Na verdade, Machen sinaliza para o princípio “separados, mas iguais” da infame decisão judicial ‘Plessy v. Ferguson Supreme Court’ [Plessy contra a Suprema Corte de Ferguson] ao afirmar que “a questão não é como se aqui [o Seminário de Princeton] fosse o único lugar para o qual eles [os negros] poderiam vir para serem educados ministerialmente”, citando instituições teológicas negras existentes na época.
B.B. Warfield
Além disso, Machen afirma que outros compartilham de suas opiniões no corpo docente de Princeton: “Falei com vários membros do corpo docente da faculdade, (...) todos eles simpatizam completamente comigo, (...) de forma que nem um único docente concorda com a opinião do próprio Doutor Warfield, em detrimento à minha”. Benjamin Breckinridge Warfield, presidente do Seminário de Princeton na época, é conhecido por seus escritos contra a escravidão e a segregação. Machen escreve de uma querela de duas horas que teve com Warfield sobre a integração racial nos dormitórios do Seminário de Princeton, da qual ele diz: “Tenho a total impressão que, apesar de seus notáveis dons, (...) [Warfield] amargamente prescinde de uma apreciação sobre os fatos da natureza humana”.

Por fim, enquanto Machen afirma que os docentes concordam com ele em relação à segregação racial dos dormitórios, ele observa que alguns desses professores eram “simpatizantes” dos direitos civis dos negros, e que direitos igualitários para negros são um perigo para a vivência do homem branco:
“É verdade que alguns deles são ‘simpatizantes’ dos direitos civis de negros. Eu sempre fico intensamente irado quando ouço pessoas falarem eloquentemente sobre direitos civis iguais para negros, quando em muitas partes do Sul esses direitos iguais significariam que cada legislador e cada juiz seriam do tipo selvagem (...) e os homens brancos estariam menos seguros em partes deste país do que (...) na maior parte do mundo onde a proteção de seu governo de origem está com eles”

Teologia Branca Desmascarada


Embora essa seja uma carta privada entre Machen e sua mãe, os eventos e ações mencionadas nela não são privados. A posição de Machen com relação à segregação racial é perfeitamente clara e adiciona uma camada totalmente nova à narrativa histórica sobre ele. Ele não era simplesmente um defensor da teologia reformada e conservadora, mas um defensor aberto e eloquente da segregação racial e desaprovava os direitos civis de um grupo inteiro de semelhantes portadores da imagem de Deus. Suas ações tiveram vastas consequências institucionais e sistêmicas no seminário e além dele.

Ademais, seus sentimentos e ações acerca dessas questões, como segregação racial e direitos civis, não eram não-teológicas ou neutras do ponto de vista teológico. Este é um claro exemplo de um homem que permitiu que seu cativeiro cultural redefinisse, modelasse e até desfizesse princípios do evangelho do núcleo da fé cristã. A teologia branca é simplesmente isto: a reformulação da fé cristã e do próprio evangelho para acomodar a hegemonia, o privilégio, a normatividade e até a supremacia do autoimposto status de branquitude. A fé cristã foi moldada nos ideais de como Machen pensava que o mundo deveria funcionar e como grupos humanos deveriam ou não se relacionar uns com os outros. Sua teologia confessional (aquilo que ele dizia acreditar) e sua teologia prática e empírica (o que ele vivia no dia a dia) nunca foram mais claramente separadas do que neste caso.
R.L. Dabney, teólogo reformado, pastor e ávido defensor da escravidão
No entanto, Machen é um exemplo de como alguns Cristãos Brancos permitiram que sua branquitude e seu desejo de proteger seu status privilegiado manchassem e distorcessem o evangelho e minassem o escândalo da cruz. Se o que ele disse era verdade, todos os colegas docentes de Machen com uma exceção estavam ao lado dele no que diz respeito à segregação racial. A teologia branca tem um longo histórico de proteção ao status inventado de branquitude em detrimento do status também inventado de não-branquitude. A teologia branca tornou prática e política na igreja considerar o batismo de povos escravizados inferior ao batismo de seus senhores. A teologia branca não apenas escravizou, colonizou e desumanizou, mas considerava esses atos hediondos perfeitamente harmônicos com a confissão de Jesus como Senhor e Salvador.

Talvez o fato mais pérfido da teologia Branca, no entanto, seja que ela prospera exatamente ao mascarar ou distorcer a verdade para proteger a si mesma de críticas honestas e justas. Não apenas Machen, mas muitos teólogos brancos e europeus nos círculos reformados e evangélicos conservadores são frequentemente pintados como as vozes padrão e definitivas de toda teologia que é boa, objetiva e imparcial. Vozes de cristãos não-brancos são vistas, na melhor das hipóteses, como supérfluas e, na pior das hipóteses, ilegítimas do ponto de vista teológico. Falhas morais alegadas ou reais da parte de teólogos de cor são usadas para questionar sua ortodoxia, enquanto pecados dos mesmos tipos em teólogos brancos são justificados por serem “produtos de seu tempo”.

Em Direção à uma Narrativa Histórica Honesta


O fato de que Machen ostentava uma ortodoxia teológica e, ao mesmo tempo, mantinha firmemente convicções segregacionistas deveria nos fazer todos parar e pensar sobre como contar a história dos nossos próprios heróis e heroínas da teologia, e deveríamos pensar sobre quem consideramos nossos adversários teológicos. Deveríamos considerar se já engrandecemos equivocadamente alguns da nossa própria tribo, ao mesmo tempo em que injustamente derrubamos outros. Será que criamos uma atmosfera de orgulho espiritual e teológico? Será que ensinamos a história da forma mais honesta possível, ou mascaramos os fatos que inconvenientemente minam nossas posições de credibilidade e autoridade? Os cristãos, enquanto gente que acredita que a verdade liberta, deveriam ser mais dispostos e interessados em contar a história da forma mais honesta possível: as coisas boas, as ruins e as feias. Só assim nós poderemos apreciar a verdade onde ela for contada e lamentar pelo pecado onde ele for encontrado.

Timothy I. Cho, 8 de setembro de 2018
Referência: Machen, J. Gresham. “Machen to Mother”. Recebido por Timothy Isaiah Cho dos Arquivos da Biblioteca Montgomery, no seminário Teológico Westminster, datado de 5 de outubro de 1913.
Tradução: Rafael Faria

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Carta aberta a José Míguez Bonino

Carta aberta a José Míguez Bonino

Este artigo tem a forma de carta aberta à um dos mais sérios teólogos da libertação, protestante como eu. Com ela, intentamos apresentar algo como um balanço europeu dessa teologia.

Teologia da Libertação:
Carta aberta a José Míguez Bonino

Caro amigo,

Seu livro, 'Doing Theology in a Revolutionary Situation', tocou-me profundamente, deixando-me intensamente inquieto. Eu o li de uma só vez. Através dele, pude saber algo sobre a história e a situação atual da América Latina. A teologia da libertação tornou-se assim mais compreensível para mim, levando em conta o contexto próprio. Mas aprendi ainda mais sobre a forma em que a história europeia se apresenta aos olhos de um latino-americano e sobre o efeito que a "teologia política" europeia produz sobre gente nascida em uma situação tão diversa. Depois do anúncio de Hugo Assmann, na Conferência de Genebra de 1973, de que a "incomunicação" [N.T.: interrupção na comunicação] iria tomar o lugar do diálogo com os teólogos europeus, porque eles são europeus, minha disposição em abordar suas críticas, como se pode entender, foi reduzida de alguma forma. Mas você tenta aguçar as minhas críticas e as de Johann Baptist Metz para poder avançar no diálogo (página 146), e não para sustá-las. Na prática, isso é um convite. Acredito que os teólogos europeus entenderão mal os latino-americanos se estes continuarem em silêncio por mais tempo. Os confrontos podem romper um diálogo, mas também podem atrair os participantes para fora da amizade superficial e para uma comunhão mais profunda. Uma vez que você, Rubem A. Alves, Juan Luis Segundo, Gustavo Gutiérrez e Hugo Assmann expressaram claramente o que não gostam em nós e o que lhes parece irrelevante em nossa teologia para a situação em que se encontram, igualmente, também para nossa própria situação, começo a esclarecer o que nos desagrada e o que esperamos de vocês.

Teologia da Libertação, Teologia Latino-Americana?


1. A teologia da libertação quer ser uma teologia local, enquanto livre da tradição europeia e da teologia do norte global, para voltar-se às experiências latino americanas. Trata-se de um necessário processo histórico de libertação, como também pode-se observar na África e na Ásia. Quanto mais rápido isso for alcançado, melhor. Quanto mais rápido isso for alcançado, mais rápido os teólogos europeus poderão aprender de outros. Mas ao destruirmos o imperialismo teológico europeu não devemos ser substituí-lo por um provincialismo teológico. Se isso acontecer, os europeus poderíamos abandonar o resto do mundo da cristandade como um tudo e nos ocuparmos de nós mesmos, dos nossos próprios interesses e tradições. Para que a destruição imperialista seja cheia de sentido, deve conduzir à construção de uma teologia comum de dimensões mundiais, que supere a parcialização da teologia ocidental. Entre nós, as tendências a um estreito provincianismo sectarista ainda são muito fortes. Não devem ser fortalecidos mediante a uma política externa de incomunicação.
Quem conhece seus próprios limites históricos e socioeconômicos está mais ansioso para experimentar aquilo que é diferente e adventício quando se encontra além de sua fronteira. A teologia africana nos confronta com algo verdadeiramente novo, porque as formas africanas de pensamento são totalmente desconhecidas para nós após Aristóteles.

A teologia japonesa, produzida no contexto budista, incansavelmente obriga os ativistas ocidentais a reorientações fundamentais de seus interesses e modos de pensar. Na teologia negra norte-americana, temos encontrado novas formas de comunicação através da linguagem e da música de uma comunidade oprimida. Porém, até agora, as coisas comparáveis que vêm da América Latina são pouco conhecidas. Escutamos fortes críticas à teologia ocidental, mas na realidade, o que se tem oferecido nessas críticas não são senão parte do pensamento de Marx e Engels, como genuíno descobrimento latino-americano. Não estamos dizemos nada contra Marx e Engels, mas que nascidos um em Trier e o outro em Barmen, ambos formam parte da história europeia, e não são para nós um inconveniente, mas uma vantagem. Nenhum dos dois deve ser desconhecido para os teólogos europeus. Mais tarde quero tentar esclarecer esse fenômeno de reimportação teológica.

Pelo modo como se tem feito as críticas à teologia europeia, percebe-se a contradição: primeiro vemos-lhes proferindo fortes críticas, depois temos a surpresa de vê-los sustentando as mesmas coisas, inclusive com as mesmas palavras. Rubem Alves (Da Esperança, 1969), critica a "teologia da esperança" qualificando-a de demasiado transcendental na definição das promessas divinas e de demasiado negativa na acusação do presente histórico. Em oposição, ele quer enfatizar que o futuro enxerga a luz como fruto do presente histórico, assim como Leibniz e Bloch sustentaram. Porém, já que ele não pode apresentar o futuro da história como o nascimento virginal do presente, no final ele tem que indagar pelo "pai" que gerou o filho e que emprenhou o presente com esperança. Portanto, Rubem Alves fala da promessa divina e da linguagem da liberdade e termina justamente onde a "teologia da esperança" começa.

Juan L. Segundo ('Die Option zwischen Kapitalismus und Sozialismus als theologische Crux', in: Concillum, 10, 1974, págs. 434-443) acusa a "teologia política" porque, através de sua esperança escatológica, ele poderia simplesmente relativizar todas as experiências e ideologias absolutas e validar apenas avanços, analogias e projetos descompromissados, visando um futuro escatológico totalmente diferente. Sobre isso, ele apenas leu metade, porque Bonhoeffer e Barth já falaram constantemente sobre o estímulo e a intensificação das esperanças históricas por meio da esperança escatológica, para não mencionar Metz ou Moltmann. Mas ele tem razão, obviamente, em sustentar que, em suas ações messiânicas, Jesus não "desabsolutizou", mas ao contrário, de acordo com nossas experiências, uma ação um pouco "tola", "absolutizou". Sem dúvidas o evento individual de libertação ou salvação não adquire desse modo um "caráter causal" em relação ao reino de Deus (nem mesmo Pelágio jamais teria dito isso), mas o reino é que obtém um caráter causal do evento de libertação experimentado, porque toda atividade messiânica (Lucas 4:18ss) cumpre as possibilidades que se tornaram possíveis pela irrupção do tempo messiânico. Assim, o reino messiânico é o sujeito de sua realização histórica, e não o inverso. Mas isso precisamente "absolutiza" o relativo ou introduz o incondicionado no condicionado. Se John L. Segundo houvesse permanecido nesse ponto, poderia ser encarado como autocrático. Mas no final de seu artigo, ele mesmo relativiza esse conceito quando fala de uma "causalidade frágil, parcial e que frequentemente erra e deve ser iniciada novamente" e ao dizer que na história "o reino escatológico está em jogo, embora talvez apenas em forma fragmentária" (443). Desta forma, ele substituiu apenas as expressões "antecipação", "desígnio" e "analogia" pela expressão "fragmento". Isso não é realmente uma "crítica radical até mesmo dos teólogos europeus mais progressistas", como supõe, já que todos eles usaram o termo "fragmento" neste contexto e, na minha opinião, com uma frequência muito grande.

José Míguez Bonino (Doing Theology in a Revolutionary Situation, Philadelphia, 1974) apresenta os mesmos problemas. Seu barthianismo sempre o permite distinguir cuidadosamente entre o que Deus faz e o que os seres humanos fazem. Mas, ao mesmo tempo, censura Barth e os europeus e portanto, ao mesmo tempo, a si mesmo, por não superar esse dualismo por meio de uma nova maneira de pensar histórico-dialética. Em contraste com Moltmann e a teologia européia, ele desejaria "materializar" o reino de Deus a partir de uma perspectiva histórica e bloquear a retirada para uma "função crítica" neutra na teologia. Bem, diz uma, esta é uma nova orientação que nós, consciente ou inconscientemente, ainda não vimos claramente. Ele desejaria, contra mim e a teologia europeia, "materializar" o reino de Deus a partir de uma perspectiva histórica e retirar da teologia uma suposta "função crítica" neutra. Bem, como alguém disse, esta é uma nova orientação que nós, consciente ou inconscientemente, ainda não vimos claramente. Contudo, se alguém analisa o pensamento dele, encontrará nele o que ele critica – a "teologia política" de Metz e a minha. Ele fala de uma relação positiva entre o reino de Deus e o empenho humano na histórica como chamado, convite e impulso ao chamado. Nossas opções históricas concretas deveriam "corresponder" ao reino (de acordo com Barth). Descreve a conexão crítica do juízo de Deus a todos os nossos esforços humanos (de acordo com Lutero). No final, fala de uma "função utópica" da escatologia cristã, da fé cristã como estímulo e provocação para ação revolucionária, da fé escatológica que torna dotada de sentido a entrega da vida para a construção de uma ordem temporal imperfeita e da ressurreição dos mortos como triunfo do amor de Deus e de sua solidariedade com todos os seres humanos, na qual o imperfeito recupera sua perfeição (de acordo com a Teologia da Esperança). Tudo isto se pode encontrar também em Bonhoeffer, Barth, Gollwitzer, Metz e outros europeus. Pode-se concordar completamente com Míguez, mas ao mesmo tempo se indagar qual é o sentido de sua crítica afinal.

A Teologia da Libertação de Gustavo Gutiérrez é bastante considerada pelos teólogos latino-americanos como a principal Teologia da perspectiva latino-americana. Ante sua leitura não é possível inquietar-se menos. O leitor desejaria descobrir nele a América Latina, e neste ponto se frustra, embora seja um livro magnífico. Gutiérrez postula um processo de libertação para América Latina calcado na história europeia da liberdade. Ele torna isso claro quando se utiliza dos nomes de Kant e Hegel, Rousseau e Feuerbach, Marx e Freud. O processo de secularização se descreve detalhadamente das mãos de Gogarten, Bonhoeffer, Cox, Metz. Tudo numa elaboração nova e independente que oferece muitos pontos de vista novos; mas todo tomado justamente da história da Europa, e nada da história da América Latina. Gutiérrez tem elaborado uma valiosa contribuição para a teologia europeia, mas, o que há de especificamente latino americano?

Não é fácil dizer essas coisas, pois não se trata de censura, nem muito menos de uma contra-crítica. É inclusive presumível que nós europeus, com paternalismo, vejamos aí algo falso, como "um produto de consumo" de moda, destinado a superar o aborrecimento próprio, como Míguez e Assmann lamentam. Uma visão de paternalismo em que o jovem tivesse que entreter e animar o velho poderia levar facilmente a reações edípicas quando aqueles que se acham "jovens" querem se libertar daqueles que consideram "velhos". É certo atua, embora de forma inconsciente, a relação entre metrópole-colônia no relacionamento dos teólogos europeus com os teólogos latino-americanos, de igreja-mãe com a igreja-filha? Mas em todo caso seria de maior sentido trabalhar juntos por uma construção nova da teologia, em vez de pretender deixar o outro para trás em disputa com a "esquerda", a "direita" ou o "centro", pisando em calcanhares.

O Marxismo e a Teologia da Libertação


2. O segundo dos problemas é o da utilização do marxismo pelos teólogos latino americanos, não apenas na frequência (com a euforia do descobrimento missionário) com a qual se introduz e interpreta o marxismo para europeus que vivem na terra de Marx e Engels, mas sobretudo da forma em que a análise marxista é teologicamente utilizada. Míguez e Gutiérrez têm feito uma descrição forte sobre as diversas épocas históricas de seu continente. Depois da fase de conquista e colonização feitas em nome de Deus e do rei da Espanha na era do imperialismo europeu, segue uma fase de libertação nacional da Espanha e de Portugal, em parte como consequência do desenvolvimento do nacionalismo civil na Europa. Atualmente vemos as fases iniciais da libertação do povo, do ponto de vista político e social, do imperialismo econômico ocidental e de sua sujeição à uma classe dirigente através das Ditaduras Militares. Assim, sua revolução proletária começou, porém mais uma vez a partir dos movimentos socialistas e suas teorias europeias. A história da América Latina é visivelmente diferente da Ásia e África, mais eficazmente marcada repetidamente pela história europeia de domínios e revoluções. Também a necessária revolução socialista do proletariado permanece neste horizonte. Mesmo a China, que foi dominada pelo Ocidente só de forma breve e jamais completa, encontrou muito cedo em Mao seu próprio caminho para o socialismo. Quase não há sequer alguns inícios de um caminho para o socialismo peculiarmente latino-americano. Seja como for, essa é a conclusão que se pode tomar dos escritos dos Teólogos da Libertação.
Estes teólogos recomendam aos teólogos de todo o mundo utilizar a análise marxista das classes sociais para poder pisar o solo concreto da história de seus povos, mas eles não realizam esta análise na história concreta de seu próprio povo, se limitam a citar alguns conceitos básicos de Marx, e de forma tão geral que dificilmente se aprende algo da luta mesma do povo latino americano. O que se aprende é sobre as leituras que esses teólogos fazem. Neles se lê pouco sobre a história da vida e dos sofrimentos do povo latino-americano e mais sobre as teorias sociológicas de outros. Chama-se a fazer uma opção pelos oprimidos contra os opressores como alternativa moral e a aceitar o marxismo como a profecia correta sobre a situação. Agora, não é simplesmente que os teólogos europeus prefiram permanecer politicamente neutros e apenas teorizar no nível universal, como foram acusados. Mas uma coisa é estar envolvido em uma análise precisa da situação histórica do povo e outra bem diferente é fazer declamações de estudos marxistas em uma visão mundial. Quem aceita que a sociologia pode ser um pertinente substituto para um deficiente contato com o povo que trabalhe e sofre (J. B. Metz, Stimmen der Zeit, 192, 1974, pág. 809), o que é impraticável, pratica uma sociologia sobre o povo sem narrar a história do povo como sua própria história. Entretanto, o marxismo e a sociologia não inserem o teólogo no povo, inserem a priori apenas na companhia de marxistas e sociólogos. Por outro lado, apelos morais e a linguagem bíblica sobre os pobres não inserem o teólogo em seu lugar. Na realidade, tanto a teologia, como a "teologia pura", como a teologia enriquecida pelo marxismo e a sociologia, permanecem dentro de seu âmbito peculiar. A mudança autêntica, aquela que é realmente necessária, ainda está à frente dos "teólogos políticos" da Europa e dos "teólogos da libertação" da América Latina. Juntos, eles podem, a meu ver, se aventurar nessa conversão para o povo.

Também não se mostra uma sólida análise sócio-política ou bom julgamento quando na discussão da função real da "teologia política" e as palavras de Metz e Moltmann, argumenta-se que "na Europa, por exemplo, eles se integram imediatamente na ideologia liberal, desenvolvimentista, tecnológica adotada pelo Mercado Comum e sua órbita em relação ao terceiro mundo"(Míguez, página 80). Como os sociólogos do conhecimento deixam claro, essa suspeita ideológica pode ser detectada em qualquer contexto e época, mas infelizmente neste caso o autor não apresenta uma evidência sequer.
A conclusão que se deduz é que "ortopraxia, em vez de ortodoxia, torna-se o critério para a teologia" (página 81) é uma citação literal de Metz, que foi apontado como propondo a ideologia do Mercado Comum. E "a teologia tem que parar de explicar ao mundo e começar a transformá-lo" (página 81) já estava em 1964 na Teologia da Esperança do não menos suspeito Moltmann. Ambas as declarações, no entanto, podem ser verdadeiras, portanto, não desejo entrar em discussões sobre elas.

As Diversas Situações Históricas


3. A diferença mais importante entre os teólogos latino-americanos da libertação e os teólogos políticos europeus é a avaliação das várias situações históricas. Acredito que existe uma grande unanimidade no que é considerado politicamente necessário em todo o mundo. Mas os diferentes países, sociedades e culturas não vivem épocas sincrônicas. Daqui, que dependendo das situações, diferentes caminhos são apresentados para o que é considerado por todos como bom. Muitos teólogos latino-americanos acreditam que vivem uma "situação revolucionária". Outros julgam mais ceticamente a situação e falam, como Rubem Alves, em uma "situação pré-revolucionária". De onde observo não tenho muito o que dizer, mas o que considero claro é que há dois problemas ocultos quando, por um lado, tendo em vista um imperialismo econômico cada vez mais severo das nações do norte global e o fato de que estas sustentam brutais ditaduras militares, se fala da necessidade da revolução socialista e quando, por outro lado, tendo em vista o despertar do povo, se fala da possibilidade de tal revolução. A necessidade de uma modificação rápida e profunda das relações socioeconômicas pode ser indiscutível, mas de que serve a melhor das teorias revolucionárias se o sujeito histórico da revolução não existe ou não está preparado para isso? O sujeito da libertação revolucionária será somente o povo oprimido e explorado. Os intelectuais e estudantes certamente não são tais sujeitos. O máximo que podem fazer é lançar faíscas revolucionárias sobre a linha seca e cortada. Mas se o próprio povo não está "ardendo" e não se levanta, as faíscas mais belas não tem valor algum. Elas chegam a ser luzes sectárias ao redor de círculos elitistas que se reúnem cerimoniosamente afim de afirmar-se a si mesmos. A partir de uma situação verdadeiramente revolucionária, pode-se falar justificadamente, somente quando sua necessidade é geral e comumente experimentada, quando a situação se torna insuportável, quando é reconhecida como a única necessária e quando o potencial para fazer o que é considerado necessário está pronto.

Se tomarmos esses pontos de vista e os aplicarmos à situação na Europa, realisticamente não podemos falar de uma situação "revolucionária" ou "pré-revolucionária". Houve, realmente, um momento na década de 1960, nas revoltas estudantis, no movimento contra a Guerra do Vietnam, e no "socialismo com face humana", no qual se podia assinalar uma situação desse tipo e alternativas concretas a um sistema estabelecido. Mas temos visto que as teorias revolucionárias mais belas não encontram base no povo e acabam, portanto, sem sujeitos. O núcleo da elite dos ideólogos desenvolveu um "socialismo para o povo", mas o "socialismo do povo" não viu a luz do dia. As reações do povo foram consequentemente bem mais hostis. O povo teve uma visão muito mais realista dos privilégios dos estudantes, que poderiam permitir-se fazer demonstrações durante as horas de trabalho, mas não se interessaram muito em suas palavras de ordem.

Os chamados teóricos de esquerda não sofriam de uma manifesta falta de realismo, como os teóricos conservadores de direita os acusavam, mas sim de contato defeituoso com o povo. Em nossa latitude, evidentemente, o povo não está interessado em um imperialismo ideológico. Obviamente há contextos nos quais largos trens esperam que a locomotiva os guiem para o destino, mas também há momentos nos quais a locomotiva parte tão rápida que os acopladores se separam deixando o trem sem movimento sobre os trilhos. Então, goste ou não, a locomotiva deve voltar e se acoplar ao trem novamente. Dizendo sem figuras: parece muito mais importante manter contato com o povo do que viajar sozinho para o país do futuro. É mais importante viver e trabalhar no povo e com o povo do que provar uma sociedade sem classes apenas na teoria pura. Obviamente isso parece ser uma capitulação, mas não é, porque um passo concreto é mais valioso do que a mais bela ideia das possibilidades.

O guia de pensamento, que eu mesmo considero realista na Europa e que, ao mesmo tempo, está grávido do futuro, é o do socialismo democrático. Nos países europeus – incluímos também os EUA - não é possível realizar o socialismo às custas da democracia. Ninguém estaria disposto a sacrificar por novos sonhos as liberdades já alcançadas, por mais imperfeitas e parciais que sejam, tais como: liberdade de imprensa, sufrágio universal, direito de livre opinião e expressão, direito de greve, liberdade de movimento e ação, garantias legais, etc. Há muitos, no entanto, aqueles que estão dispostos a estender esses direitos democráticos às relações econômicas, a lutar desde os sindicatos pela democratização da economia.

O guia de pensamento, que eu mesmo considero realista na Europa e que, ao mesmo tempo, está grávido do futuro, é o do socialismo democrático. Nos países europeus – incluímos também os EUA - não é possível realizar o socialismo às custas da democracia. Ninguém estaria disposto a sacrificar por novos sonhos as liberdades já alcançadas, por mais imperfeitas e parciais que sejam, tais como: liberdade de imprensa, sufrágio universal, direito de livre opinião e expressão, direito de greve, liberdade de movimento e ação, garantias legais, etc. Há muitos, no entanto, aqueles que estão dispostos a estender esses direitos democráticos às relações econômicas, a lutar desde os sindicatos pela democratização da economia.

O socialismo dos países do Leste é visto no Ocidente como o socialismo militar prussiano ou como socialismo burocrático feudal; em qualquer caso, como socialismo estatal, sem um estado democrático. Quem desfrutou de um pouco de liberdade política, não pode mais acreditar nas teorias com as quais a ditadura é justificada, seja da direita ou da esquerda. Refere-se apenas à realidade. Socialismo sem democracia, justiça econômica sem garantia de direitos humanos, não constituem nenhuma esperança para o nosso povo. Um socialismo democrático exige avançar ao mesmo tempo nos dois sentidos, no caminho da democratização das instituições políticas e no caminho da socialização das relações econômicas. Requer ser construído sobre o que já é positivo e sobre o potencial existente, e no nível do sindicato participar, através da co-gestão, no poder econômico e, assim, distribuí-lo para que possa ser controlado pelo povo. Se este caminho democrático para o socialismo é bem sucedido e se é mostrado ou não eficaz para os países do terceiro mundo, é algo que ainda será. Ninguém pode dar garantias e ninguém vai alegar que esta é a única ortopraxia autêntica e infalível. Mas depois que o caminho inverso, do socialismo à democracia, produziu tão poucos resultados reconfortantes, não tivemos escolha a não ser seguir esse caminho. O que não impede que outros, de sua situação peculiar, deva andar outros caminhos e, em circunstâncias determinadas, tente superar a dominação de classe e a ditadura de direita por uma ditadura esquerda temporária de proteção e construção de trasição do socialismo e da democracia. Certamente esse caminho não pode ser excluído em certas circunstâncias de extrema necessidade e como último recurso, embora o preço a ser pago por ele seja sempre bastante alto. Deve-se, no entanto, aceitar que o caminho da democracia para o socialismo democrático e do socialismo para a democracia social não é mutuamente exclusivo, mas converge. Afinal, tanto no socialismo quanto na democracia, se trata de que o povo se torne sujeito de sua própria história de liberdade e o homem alcance uma humanidade livre de defeitos.

Ortopraxis é uma palavra perigosa se você quiser dogmatizar e padronizar uma praxe de vida. Nas várias situações políticas e nas várias épocas históricas em que realmente vivemos, o justo e conveniente que deve ser feito oferece diferentes aparências. O objetivo, no entanto, só pode ser o mesmo e o mesmo para todos: uma sociedade mundial humana, na qual os homens não vivem mais um pelo outro, mas se sentem solidários uns com os outros. A ortopraxia latino-americana terá outra face que a ortopraxia da Europa Ocidental. O importante é que a perspectiva é a mesma dentro das diferenças. Não deveria ser possível o reconhecimento recíproco e, com ele, uma aceitação recíproca da crítica mútua?

Duas Tomadas de Posição


Concluo esta carta tomando posição frente a dois acontecimentos que me preocupam no momento:
a) Trinta e dois proeminentes representantes eclesiásticos protestantes receberam em dezembro de 1974 a tomada do poder no Chile pela Junta Militar como "uma resposta de Deus às orações de todos os crentes que vêem no marxismo um poder satânico". Essa afirmação é tão monstruosa que não pode deixar-se correr com um silêncio penoso. O Deus de Jesus Cristo não responde às orações de seus crentes com a execução de mais de 10.000 homens. Com essa declaração, os chamados "crentes" se colocam como defensores de uma religião política moderna que nada tem em comum com o cristianismo. Toda a cristandade terá que fazer penitência em todo o mundo pela declaração daqueles trinta e dois "representantes eclesiásticos protestantes". Terão que se distanciar e se converter.

b) Em janeiro de 1975, o governo socialista da Iugoslávia suprimiu a publicação da mundialmente famosa revista filosófica "Praxis", e expulsou oito professores universitários de Belgrado, membros do círculo "Praxis". Foi "Praxis" o último centro do socialismo democrático europeu no qual os socialistas do Leste e do Oeste poderiam trabalhar juntos. Com isso, se extingue na Europa uma das poucas luzes que iluminam socialistas e democratas juntos. Regra do dogmatismo e da burocracia. Nada vem mais de propósito para os tecnocratas do capitalismo.

Nossa esperança pode remeter-se tão somente a uns poucos "sinais dos tempos" positivos. Os sinais de destruição aumentam cada vez mais. Nossa esperança não pode ser mais infantil e entusiasta. Tem que se tornar, madura e firmemente, em comum resistência contra o mal dos soldados da morte. Analisamos nossa situação como sempre: a esperança é a fidelidade à ressurreição e, portanto, a perseverança na Cruz. Isso é aprendido no povo, na comunhão com os pobres e com aqueles que sofrem, com aqueles que têm fome e sede de justiça.

Na Comunhão do Povo das bem aventuranças

cordialmente,
Jürgen Moltmann
[1976]

(Tradução: Eric Brito Cunha e Rafael de Oliveira Faria)

terça-feira, 12 de março de 2019

O cristianismo da grande comissão afasta pessoas negras do movimento evangélico

O cristianismo da Grande Comissão e o cristianismo da Redenção Cósmica

Desde 1994, pesquiso sobre a ineficiência do movimento evangélico em integrar [racialmente] suas igrejas suas e suas instituições após o Movimento dos Direitos Civis. As forças armadas dos EUA, os esportes profissionais, as artes, cinema, negócios, os profissionais de saúde, et cetera, todos tiveram avanços em termos de diversidade racial desde 1965. O movimento evangélico, no entanto, permanece tão branco hoje quanto era quando Tom Skinner discursou sobre raça e movimento evangélico na cidade de Urbana, em 1971. Pouco mudou. Depois de 20 anos de observações, minha conclusão é que a redução evangélica da missão do cristianismo ao conceito extra-bíblico de “grande comissão” serve como um obstáculo, prevenindo muitos evangélicos brancos de conectarem o evangelho com as experiências vividas das pessoas afro-americanas.

Refiro-me a isso como “cristianismo da grande comissão”. Ele não é herético, não é necessariamente errôneo, é acidentalmente deficiente.

Embora o termo “grande comissão” não seja encontrado em lugar algum da Bíblia, ele tem sido defendido pelos evangélicos como a essência imperativa da missão cristã. O problema exegético, contudo, é que o termo “ide” em Mateus 28:16-20 não é de fato um imperativo, é um particípio. De acordo com Robert Culver, a gramática grega simplesmente não sustenta “ide” nessa forma imperativa, a menos que você esteja partindo de uma exegese com uma agenda avivalista para ler o texto. Devidamente traduzido, o versículo diria “indo” ou “ao ir” (por todo o mundo...). O particípio aoristo não funciona como um imperativo neste texto e, portanto, o chamado para “ir” não se refere a uma ação particular de certos indivíduos que irão fisicamente para algum lugar específico. Isso não significa que os cristãos não deveriam “ir” de forma intencional. O trabalho de discipulado da igreja é um chamado distinto e um imperativo exegético ao longo do texto bíblico. Mas o cristianismo da grande comissão é uma visão limitada do evangelho, do reino, da redenção, que parece poder manter permanentemente o movimento evangélico como um dos únicos espaços predominantemente brancos nos Estados Unidos.

O cristianismo da grande comissão


O domínio da “grande comissão” como uma convocação para a obra da igreja no mundo é frequentemente atribuído ao missionário batista William Carey. Entretanto, como Robbie Castleman observa,
Acontece que essa passagem pode ter recebido seu título descritivo de um missionário holandês, Justinian von Welz (1621-1688), mas foi Hudson Taylor, quase 200 anos depois, quem popularizou o uso de ‘A Grande Comissão’. Parece, assim, que Welz ou algum outro missionário pós-reforma tenha provavelmente cunhado o termo ‘a grande comissão’ e o movimento evangélico atual herdou um slogan que é mais uma desvantagem do que eles podem imaginar.
Há um sumário bem aceito de um dos melhores exemplos de como o cristianismo da grande comissão vê a narrativa cristã. Para o cristianismo da grande comissão, o evangelho é “o anúncio das boas novas da obra de Jesus para restaurar os portadores da imagem de Deus pecadores à correta adoração a Deus”. O reino de Deus é “o governo de Deus demonstrado na terra entre um povo em adoração”. E redenção é “a obra de Deus para libertar seu povo da escravidão”. Repito, essa visão não está errada, é apenas limitada em sua aplicação. Sua ideia fixa sobre salvação individual e sobre o papel da igreja não diz nada acerca da redenção da criação, a qual Deus também está reconciliando consigo mesmo através de Cristo

O cristianismo da redenção cósmica


A visão alternativa é a que chamo de “cristianismo da redenção cósmica”. Em sua essência, este é uma visão redentiva-histórica do evangelho. A forma como Tim Keller define o evangelho é um ótimo exemplo: “Através da pessoa e da obra de Jesus Cristo, Deus nos dá salvação plena, resgatando-nos do julgamento do pecado e levando-nos à comunhão com ele, restaurando toda a criação, na qual podemos usufruir da nossa nova vida com ele para sempre”. A diferença é sutil, mas gigantesca em sua implicação para a vivência negra nos EUA.

A referência sobre a restauração de toda a criação é a chave. O cristianismo da grande comissão infelizmente não inclui a criação, o reino ou a redenção como partes necessárias do evangelho. O fato de deixar de fora a “criação” explica por que o cristianismo da grande comissão tem tantos problemas em encorajar o envolvimento cristão com questões sociais.

Eu definiria o evangelho dizendo que ele é as boas novas da obra salvadora de Deus em Cristo e no Espírito, pela qual os poderes do pecado, morte e julgamento são vencidos e a vida da nova criação é inaugurada, num movimento em direção à glorificação de todo o cosmo. O reino de Deus é o seu reinado dinamicamente ativo na história humana, através de Jesus Cristo, sobre todo o cosmo. Redenção, então, é a obra de Deus de restaurar inteiramente a criação para si.

O cristianismo da redenção cósmica, como uma abordagem redentiva-histórica, busca chamar o povo de Deus para ele mesmo através do evangelismo e libertar a criação do poder do diabo até que Cristo retorne.

A tradição reformada tem reconhecido que Deus se importa com tudo na criação que foi afetado em Genesis 3 e que Deus pretende redimir todas as coisas, “até aonde o mal houver alcançado”. Redenção é uma história pactual abrangendo tudo na criação.

Gerard Van Groninigen explica em seu livro ‘Criação e Consumação’ que a criação (o “cosmo”) inclui indústria, tecnologia, recreação, artes, educação, comércio, política, et cetera. Esse é o “reino cósmico” de Deus. Como resultado disso, vidas negras importam para Deus, situações de pobreza importam para Deus, violência por armas de fogo importa para Deus, racismo importa para Deus, divórcio, abuso infantil, genocídio e tráfico sexual importam para Deus. O cristianismo da grande comissão continua incompleto e, em grande parte, inútil para a vivência negra, porque o povo de Deus foi comissionado a ter domínio sobre o mundo tendo como objetivo sua atual libertação, e não apenas para a salvação espiritual. Questões de justiça na sociedade são, para os cristãos, questões de libertação da criação em relação à obra diabo. A ideia fixa do cristianismo da grande comissão no evangelismo obscurece essa realidade.

A destruição do reino parasitatário


Van Groningen explica que Genesis 1 e 2 ensina que a humanidade “deveria estar envolvida nas descobertas, nos desdobramentos, nos florescimentos, nos desenvolvimentos das potencialidades (...) das forças e das leis que Deus incluiu em seu Reino cósmico”. Ou seja, Deus criou as pessoas humanas “para serem culturalmente ativas e produtivas” até que “o reino cósmico seja renovada por um evento súbito e cataclísmico” quando Jesus voltar. A queda introduziu “o reino de Satanás” na criação. Tim Keller explica: “Quando a humanidade caiu com o pecado, a ordem criada, de alguma forma, participou daquela queda. Agora está “entregue à inutilidade”. Tudo na criação sofre restrições [Romanos 8:20]. A natureza não é o que ela deveria ser, ou o que foi criada para ser”.

Satanás pretende destruir todas as coisas boas do reino cósmico de Deus. Seu reino é parasitário e, começando em Genesis 4, vemos que todas as formas de injustiça em toda a história humana começaram ali.

Van Groningen lembra-nos que “a primeira mensagem de redenção”, anunciada em Genesis 3:15, não era apenas uma “atividade messiânica redentiva”, mas era também um anúncio do julgamento final e da destruição do reino parasitário. É aí que o evangelho da redenção começa. Os teólogos chamam isso de “protoevangelum”. É a primeira indicação de que Deus pretende recuperar e redimir o que a queda amaldiçoou.

Até que Cristo retorne, observa Van Groningen, a antítese entre Deus e Satanás, “deve ser reconhecida e enfrentada na espiritualidade, mas também em todos os aspectos das atividades sociais e cósmicas (...) pelos crentes que buscam cumprir seus mandatos espirituais, sociais e cósmicos”. Por isso, os cristãos não devem perguntar-se se certos assuntos relacionados à justiça são ou não “questões relacionadas ao evangelho”. Para o cristianismo da redenção cósmica, Deus trazendo justiça aqui e agora é um aspecto do anúncio da redenção de seu reino cósmico sob o senhorio de Jesus Cristo.

O cristianismo da grande comissão não precisa de justiça social.


O cristianismo da grande comissão não costuma pregar uma redenção de toda a criação. Nunca pregaram. O cristianismo da grande comissão pregou um evangelho incompleto, avivalista e individualista para escravos nas plantations e não tinha intenção de libertá-los da escravidão. O cristianismo da grande comissão não fez nada para impedir e lutar contra os linchamentos públicos de negros durante o período da Reconstrução. Ele não fez nada para libertar os negros de Jim Crow. Na verdade, ele fez exatamente o oposto. Eram geralmente membros de igrejas do cristianismo da grande comissão no Sul os que lutavam contra o Movimento de Direitos Civis liderado pela igreja negra. Se comparar com as recentes tensões raciais nos EUA, você encontrará um paralelo. Os defensores do cristianismo da grande comissão foram incapazes de responder bem ao que aconteceu em Ferguson, Missouri. Não é de admirar que os afro-americanos (como Lecrae) que já se alinharam com o cristianismo da grande comissão, “divorciaram-se” do movimento evangélico branco.

Para obter participação nas questões sociais dos cristãos, o cristianismo da grande comissão justifica seu encorajamento às obras de justiça sob as lentes do evangelismo, o que efetivamente ignora o sofrimento real que vem pelas mãos da injustiça. Como resultado, provavelmente o cristianismo da grande comissão nos EUA sempre será uma religião predominantemente para gente branca que nunca sofreu as mazelas sistêmicas e culturais estadunidenses do reino parasitário e seus surtos prolongados. Isto é, um dos privilégios de ser branco nos EUA é nunca precisar que Deus intervenha por você nas obras do reino parasitário que está operando através das estruturas sociais estadunidenses. É, ainda, nunca precisar que Deus intervenha por você nas obras do reino parasitário enquanto ele avança através das formas normativas de opressão da supremacia branca.

Isso tem alguma precedência na história dos EUA. Durante a Era Fundamentalista, foi o cristianismo da grande comissão que impediu que os evangélicos brancos se unificassem aos evangélicos negros porque os fundamentalistas não viam o racismo estrutural como uma “questão do evangelho”. Historicamente, a igreja negra tem sido a melhor representação estadunidense do cristianismo da redenção cósmica, desde a escravidão e do Movimento dos Direitos Civis, e mudou os EUA para sempre.

A igreja negra incorpora o cristianismo da redenção cósmica.


Não é de surpreender que em 2018 os negros tenham sido nomeados “os mais engajados com a Bíblia nos EUA”. Os cristãos negros têm tido a necessidade de se relacionar com todo o cânon da Bíblia para compreender todos os aspectos da vida, tanto nos âmbitos pessoais, como nos sociais, diferentemente das pessoas brancas. Para os cristãos negros, a Bíblia não apenas trouxe muitos para a união com Cristo, mas também nos ajuda a navegar através das atividades do reino parasitário nos EUA. O cristianismo da redenção cósmica sabe que todas as injustiças ao redor do mundo e na igreja são “questões do evangelho”, porque o evangelho, em sua essência, é o chamado de Deus ao seu povo para si e a libertação da criação. Reivindicar domínio sobre a injustiça não é, portanto, uma “implicação do evangelho”. Mais do que isso, é uma parte fundamental do evangelho.

Enquanto o cristianismo da grande comissão mantiver seu evangelho incompleto, avivalista e individualista no centro do evangelicalismo, o êxodo silencioso de pessoas afro-americanas deixando os contextos evangélicos vai continuar. A recusa da maior parte do movimento evangélico conservador em valorizar a libertação da criação como também sendo central ao evangelho é a razão teológica pela qual ele não avançou substancialmente nas questões raciais desde 1970. O evangelho da redenção cósmica inclui o chamado de Deus ao seu povo para si e a redenção de todo o cosmo. Isso inclui o evangelho redentivo e histórico que começou no Jardim do Éden e alcançará todas as tribos, nações e línguas num mundo em guerra com o reino parasitário até a consumação do reino de Deus no retorno de Jesus Cristo.

Anthony Bradley, autor estadunidense e professor de religião, teologia e ética na King’s College, na cidade de Nova Iorque. Também é professor adjunto no programa de Estudos Religiosos e Teológicos. 

Segue link para o texto original: https://www.fathommag.com/stories/the-great-commission-christianity-keeps-blacks-away-from-evangelicalism  

Segue o link para uma palestra do Dr. Anthony Bradley sobre o mesmo assunto:
http://www.youtube.com/watch?v=GXQBniBQHmo


Tradução: Rafael Faria